Davi de ópera bufa*

O Presidente Jair Bolsonaro não cansa de expor o Brasil ao ridículo. Que ele ostente com orgulho sua própria ignorância, a rigor nada nenhum dos outros brasileiros teria com que se incomodar. Bastaria ele renunciar ao posto que ocupa e desfilar sua hostilidade à democracia, à ciência e à verdade, onde quer que lhe desse na cabeça. Como chefe de um poder republicano, porém, esse é um direito que não lhe assiste. A tarde da última terça-feira marcará talvez (e até agora) o mais representativo dia destes quase 2 anos sombrios que estamos vivendo. A suspensão da pesquisa da vacina contra a covid-19, pela Agência Nacional de Vigilância de Saúde, ANVISA, foi saudada por ele como uma vitória pessoal. O inimigo, neste caso, não é o mal que, não demora, terá matado 170 mil brasileiros. Também não é Doria, o governador de São Paulo, o alvo de seu ódio. Os mais de 100 milhões de brasileiros que lhe negaram o voto estão no centro do alvo. Afinal, repetindo como tem repetido, que todos um dia morreremos, não faz diferença se morrermos mais cedo. Por isso, reclamar dos riscos a que toda a população está exposta é conduta de maricas, como ele disse do alto de sua maligna ignorância. Não ficou nisso, porém, o ex-capitão excluído por estranho acordo das forças armadas. Mais tarde, como um David sem funda, o Presidente da República ameaçou o recém-eleito Presidente dos Estados Unidos da América do Norte. Referindo-se à suposta retaliação que Joe Biden usaria para responder à devastação da Amazônia, o anão do Planalto assegurou que a reação brasileira seria feita com pólvora. Pelo que sabemos dessa figura a um só tempo trágica e patética que quase 68 milhões de brasileiros puseram sentado na cadeira mais importante da República, é justo admitir não ter ele a menor ideia do que é uma bomba atômica. Seus companheiros de caserna, com certeza, sabem do que se trata. Talvez por isso trataram de mantê-lo distante de seus arraiais. Pena se terem encantado com a inglória presença à margem do Lago Paranoá. E vão seguindo com o chefe que não o sabe ser. ________________________________________________________________________________

*Escrito antes de mais um recuo do governo. O Brasil já havia dado novo motivo de galhofa no exterior e algumas centenas de brasileiros já haviam morrido, quando a ANVISA autorizou a retomada da pesquisa.

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