Crepúsculo de quase-deuses

O sucesso inebria e ensandece. E a opção pelos fins, quando os meios são desprezados, põe a perder as melhores intenções. Imaginem-se quando não é bem esse o caso e as intenções cuidadosamente ocultadas aparecem! Tudo resulta no triste e vergonhoso espetáculo a que todos assistimos: os milicianos da justiça, vingadores e justiceiros, mais que promotores da Justiça e magistrados, caem como cai o sol todo fim de tarde. Sem a beleza e o colorido do astro, e talvez porque desafiaram a luz que ele projeta sobre todas as coisas. Sérgio Moro, Deltan Dalagnoll e sua grei revelam-se mais perigosos e sórdidos que os por eles acusados. Com a agravante de terem enganado milhões de brasileiros, muitos dos quais julgaram possível pensar com os intestinos, não com o cérebro. Em lugar dos neurônios, o bíle. Não é só isso, todavia, que agrava e torna maior o tamanho de seus crimes. As relações escusas com autoridades e patrocinadores de outro país trazem ao rol de ilícitos por eles praticados crimes que em tempos de guerra ocupam o pelotão de fuzilamento. Ainda bem que não estamos em guerra convencional! Também podemos não estar assim tão próximos de vê-los sentados no banco dos réus, que a confissão reiterada de Ônix Lorenzoni, o criminoso arrependido e multado, ajuda a prever.

No Brasil sabe-se que tudo mata, desde a caneta que aprofunda a desigualdade até a milícia protegida por poderosos patrocinadores, para dizer o menos. Também se sabe que se mata por nada - um sapato tênis, um cigarro, o ódio retido nas entranhas. Pior, porém, quando mortas são as esperanças. Em especial, quando elas se dirigiam a erradicar o mal que todos proclamam em público condenar, para à sorrelfa dela participar. Tanto quanto a seca do Nordeste e a construção de rodovias favoreceu a prática, a corrupção desperta nos justiceiros a ambição desmedida, a perversidade mal-escondida, a ação torpe. E o que seria para festejar nos dá motivo suficiente para a frustração. Por isso, a fazer-se justiça, que sentem no banco dos réus os criminosos de todo jaez, sobretudo porque pagos para fazer o contrário do que fizeram. Ao invés de servirem à Lei, dela se serviram. O barro de que são feitos é o mesmo que deu forma às criaturas que pretextam combater.

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