Crônica de uma deserção anunciada
- Professor Seráfico

- 2 de ago.
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À medida em que se vai desfazendo o império norte-americano, também é alterada a pauta dos governos nacionais. Aqui, uma das desvantagens da unipolarização do poder, resultado da queda do muro de Berlim e do desfazimento da União Soviética. A emergência da China como uma potência econômica complicou o cenário mundial e vem concorrendo para reduzir todo dia um pouco mais a força dos Estados Unidos da América do Norte. A arrogância e o espírito belicoso de Donald Trump de nada vêm adiantando, a despeito de a União Europeia ainda acreditar na recuperação do império decadente. Se isso diz respeito aos países do Velho Mundo, não basta para excluir as nações, em especial as que até recentemente se chamava emergentes, das consequências da decadência de Tio Sam. A tentativa de estabelecer o caos nas relações internacionais, resultado mais visível do tarifaço que Trump deseja impor ao Mundo, afetará quase todos os países. Para isso tem servido o que se chama globalização (ou mundialização, como a apelidam os franceses). Ainda mais, quando boa parte de governos dos mais diversos continentes pede passagem. Antes considerados subdesenvolvidos; depois, do terceiro mundo, em seguida denominados emergentes, eles criaram o BRICS. Bloco nada desprezível, como os números relativos à sua economia e população o atestam, esse novo grupo sacode a poeira de séculos ou décadas e começa a dizer a que veio. Pois é por conta do BRICS e da adesão que só tem crescido, que o pretenso imperador norte-americano chega ao desespero. Como o Brasil desempenha papel crucial na política internacional e está sob a coordenação de Lula esta fase do BRICS, acabamos por ser alvo fácil dos maus costumes do ditador d'além-do-rio Grande. Mais dia, menos dia, não haveremos de nos admirar, se o bravateiro-líder de boné recuar do seu propósito e sentar à mesa para negociar as tarifas. Aí, então, teremos que oferecer algo em troca. Algo normal nas relações internacionais, sobretudo porque, queiramos ou não, pouco a pouco cresce o sentimento de que o atual governante autoritário da maior potência bélica do Planeta, se não for contido, acabará por repetir Nagasaki e Hiroshima. Nessa hora, a escolha será centrada nos pontos em que é mais fácil ceder. Não será favorável ao Brasil, por exemplo, afrouxar as restrições ao acesso às terras raras. Nem permitir que seja comprometida, qualquer que seja o grau de comprometimento, nossa soberania. Só isso garantirá desempenho altaneiro e capaz de impedir que os poderes republicanos sejam afetados pela ação de negociantes capazes de trocar a democracia por um punhado de dólares, mesmo quando este tem alternativa na banca internacional. Dadas as facilidades e a tolerância excessiva com os desmatadores, devastadores, poluidores nacionais ou estrangeiros demonstrado pelo governo brasileiro e, sobretudo, pelo Congresso, chegará o momento em que Marina Silva pedirá o boné. Não conseguindo alcançar o objetivo de fazer o Brasil grande por políticas ambientais correspondentes à influência de nossas peculiaridades fisiográficas, ela se sentirá - mais uma vez - na obrigação de sair do governo. Oxalá eu esteja totalmente equivocado!

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