Corrupção - mentira e verdade

O esquecimento e o apagamento da História jamais concorrerão para melhorar a vida dos povos. Seja quanto às condições materiais de vida, refira-se aos valores professados e seguidos, ambos os fenômenos resultarão em mentira. Pior, porque acostumam as gerações posteriores à ignorância e ao desprezo do Conhecimento, da Ciência, da Verdade. A ditadura de 21 anos vigente no Brasil, cujos resultados se projetam até hoje em nossa vida, parece destituída de significado profundo, ainda que lamentáveis e profundos os exemplos deixados. Na grande maioria, maus, em todo caso, exemplos a serem observados. Em raros casos, exemplos marcados pelo ineditismo, com frequência fatos de que a História dá rol infindável de antecedentes. Nada melhor para relacionar os regimes autoritários à corrupção, que a própria História de nosso continente. Basta lembrar de Trujillo, na República Dominicana; Fulgêncio Batista, em Cuba; François Duvalier, no Haiti; Fujimori, no Peru; Pinochet, no Chile; Videla, na Argentina. Não faltam semelhantes, nas ditaduras cuja implantação contou com o apoio do Brasil, integrante influente dos golpes militares no Cone Sul, na segunda metade do século XX. Nem seria necessário lembrar o apelido pelo qual era conhecida personalidade influente durante o período ditatorial no Brasil, o ministro 10%. Redundância é verificar que muitas das persistentes falcatruas características da corrupção nacional contam com a participação decisiva – decisória, tantas vezes – de empresas e pessoas físicas criadas, formadas e fortalecidas naquele trágico e vergonhoso período de nossa História. Os autos o revelam, tenha sido qual for o desfecho de cada caso. Se dermos o mínimo de atenção à permanente tentativa de cercear o direito de expressão, de informação, de reunião e de defesa dos cidadãos, logo compreenderemos a inspiração que move todo autoritário, onde quer que seja. Com a agravante, no caso brasileiro, do sepultamento não apenas dos mortos nos porões tão ao gosto das ditaduras; do desaparecimento de tantos brasileiros e o ocultamente de seus corpos; e, como complemento revelador do quanto ainda rói por dentro da sociedade o vírus assassino, os reiterados massacres de que têm sido vitimas os pobres. Se, em muitos dos outros países a ditadura viu-se posta no banco dos réus, entre nós ela se travestiu de heroica, mesmo e ainda mais, quando caminhamos para contar 500 mil mortos. Número quase 20 vezes maior que a meta pretendida e divulgada pelo incensador da tortura e dos que a praticaram. Sendo que é o mesmo excluído das forças armadas por motivos que, de tão obscuros, reúne companheiros de credo, interesses e propósitos. Não é justo deixarmos que se percam as esperanças. Resistimos, nem que seja com a arma de que nem todos dispõem: o sentimento humanitário cujo calor não queima, porque vem do coração pulsante, da mente inquieta, do amor ao próximo. Aos que hoje vão ás ruas pedir a volta da ditadura, enquanto seus parentes e amigos morrem morte matada pela fome, pelo metralhamento nos morros, no campo e nas áreas indígenas, ou pelo vírus, nem passa pela cabeça o que foi, é e será uma ditadura. Não será demais lembrar aqui dos pretensos objetivos do golpe de 1964: eliminar os comunistas e extinguir a corrupção no País. Sendo impossível matar ideias, em relação ao primeiro objetivo desmontaram com êxito a resistência, matando, fazendo desaparecer brasileiros, separando famílias, constrangendo e ofendendo qualquer direito humano. Com relação ao segundo objetivo, chegaram ao ponto de ter um dos mais destacados dos agressores da democracia em feliz e alegre convivência com os que, ao grito de pega o ladrão, seriam os primeiros a correr. Nem se sabe ao certo onde estará escondido o autor da pilhéria, porque outra coisa não foi a brincadeira dele. Qualquer resíduo de discernimento que houver, no mínimo de inteligência que restar, quem deia desfrute poderá vencer a ignorância, optar por ser humano. É pegar ou largar. Simples assim, diria outro prócer ora posto no proscênio.

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