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Corrupção e hienas

Muitos leitores hão de convir que, às vezes, o pecado serve a causas meritórias. As leis penais consagram o estado de necessidade como um dos institutos atenuantes do rigor da pena. Seria o caso, por exemplo, das contusões causadas pelo desastrado salva-vidas em um afogado, para evitar a morte deste. Se olharmos para a realidade nacional e as práticas nocivas que empobrecem e conspurcam as instituições republicanas, veremos a oportunidade de usar os pecadores em proveito da boa causa. Comentam-se e combatem-se os atos de corrupção, quase desprezando a razões por que ela se manifesta, quase sempre em benefício da desigualdade e da manutenção dos privilégios que todos dizem detestar, ao mesmo tempo em que boa parte deseje, no íntimo, inscrever-se no rol dos que deles desfrutam. É aí que se abre a porta do pecado útil. Ocupadas, em sua maioria, pelos que se tem chamado centrão, as cadeiras parlamentares têm dado dor de cabeça aos membros do Executivo - e, raramente, por boas intenções e propósitos sadios. Os orçamentos secretos, as verbas em proporção inversa à verborragia (deputados que falam pouco têm mais chance de pôr a mão em dinheirama maior), desvios costumeiros dizem mais que milhões de palavras. Tais práticas, inadmissíveis no Estado realmente democrático e de Direito, são as únicas, porém, que falam alto aos ouvidos da maioria (pelo menos da atual maioria) do Congresso. E, todos crentes em que o mercado é seu deus e senhor, tratam de fixar seu preço. Havendo dinheiro que sacie sua fome, tudo se conseguirá. O diabo é não saber-se o tamanho do apetite dessas hienas portadoras de mandatos.

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