Correção de equívocos


O ser humano traz consigo instrumentos psíquicos capazes de devolver o estado de paz necessário à própria vida. Quando sabe usar tais mecanismos, também chamados “de defesa”, mais próximo o indivíduo fica da desejada tranquilidade. Os especialistas relacionam muitas dessas defesas, identificadas no comportamento, sempre que o ser humano se percebe ameaçado. Entenda-se, portanto, dispor todo indivíduo de força interior apta à superação de problemas muitas vezes sequer suspeitados. Mal comparando, os mecanismos de defesa cumprem papel semelhante àquele desempenhado pelos anticorpos que evitam ou combatem os vírus de que somos portadores, transitória ou permanentemente. A sublimação, a racionalização , a fuga, a agressão são alguns desses – chamemo-los assim – expedientes de que se pode valer o indivíduo para manter íntegra sua psique. A propósito, a sabedoria tradicional cria narrativas que ganham caráter lendário ou mítico, justificando ou explicando certas formas de enfrentar o ânimo afetado. Talvez a explicação mais conhecida seja a história da raposas e as uvas, célebre fábula de Esopo. A frustração experimentada pela raposa foi compensada, de acordo com a explicação, também chamada “moral” da história, assim simplificada: o desprezo àquilo que, por mais desejado, não logramos obter.

Ao longo da História vemos a repetição de certas circunstâncias e eventos, como se, naquele caso particular, tivéssemos retrocedido no calendário. Uma espécie de volta ao passado. Ora, tão apegados estamos a certos dogmas, e não apenas religiosos, que acabamos por ver frustradas nossas expectativas. O futuro com o qual tanto sonhamos, uma vez ameaçado em sua realização, passa a exigir de nós uma resposta que permita conviver com a frustração experimentada. Aqui chamo a atenção para o dogma que penso ligado à possibilidade, a probabilidade até, de a História repetir-se – e não apenas como farsa. Não raro, fatos e acontecidos em passado próximo ou longínquo emergem da profundeza da memória dos povos, aturdindo e confundindo as testemunhas da incompreensível emersão. Mas elas existem, têm causa e não é raro trazerem o anúncio de ajustes no tempo. Ou seja, é dogma proclamar que só para a frente caminha a Humanidade.

Talvez impacte minha percepção a advertência de um dos meus oráculos humanos: tão longe foi a Ciência, enorme é o avanço tecnológico, que Aldrin e Armstrong chegaram à Lua! Não obstante, é quase ridícula a diferença entre os velhos barbeiros e os cirurgiões. Sem mencionar que um inseto pode dizimar toda uma população.

A vida social, experiência essencial e exclusivamente humana, insere-se na mesma lógica. Muitas das reflexões que se fazem sobre o estar no Mundo parecem-me, todavia, negligentes ou refratárias ao caráter dogmático de que se revestem. Reter-se na crença de que só para a frente andamos importa deixar sem resposta muitas das questões (fundamentais algumas) que nos desafiam. Torna-se quase um mantra atribuir anacronismo ao analista, sempre e quando tenta mostrar o anacronismo do objeto observado. É o fato, não quem o percebe, que está fora do tempo. Por isso, e pelo muito que tem entretido minha percepção, ponho em questão o que me parece equivocado - ter como dogma o que não passa de um desejo, quiçá legítimo e nobre sonho: é sempre para a frente que caminha a sociedade humana.

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