Convívio cotidiano


Passada a pandemia (ela passará...), teremos muito do que nos ocupar. Quem sabe até muitos não se deixem ficar por outro período de quarentena, refletindo sobre o significado desses dias inglórios, em nossa vida e na vida dos outros. Dos que perdemos; dos que mantendo-se vivos ainda desprezamos; dos que estão por vir – e virão! Também daqueles aos quais votamos amizade, solidariedade, compreensão, afeto. Até aqueles aos quais destinamos ostensivo ou velado ódio estarão presentes – talvez mais que os outros – nos lugares mais profundos de nós. Não devem escapar de nossos pensamentos os fatos como eles são, não como se revelam nas redes antissociais. Se não fizermos assim, e se o resultado for apenas tempo perdido, melhor é ficar flutuando na superfície de uma sociedade adoentada, com ou sem vírus qualquer. Boiar é o destino de muita coisa...

Será a hora de remover os maus sentimentos, espanar para bem longe os ressentimentos, escoimar a perversidade em grande medida responsável pelo pior dos males que afligem a sociedade humana: a desigualdade. Vencer o ódio e imunizar-se contra o egoísmo gerador, a indiferença criminosa, o preconceito assassino. Se não for feito assim, melhor não ser feito.

Terá chegado o momento, portanto, de enaltecer o papel do Sistema Único de Saúde – SUS, sem o qual mais parentes, conhecidos, amigos, desconhecidos teriam sido sacrificados. Sem o SUS, ao qual deu vida um cientista da Fundação Oswaldo Cruz, o médico Sérgio Arouca, pior teria sido a mortandade causada pela covid-19. Impossível ficar indiferente ao trabalho dos profissionais de saúde vinculados a essa iniciativa pública, sabendo-se inclusive quantos os que deram em troca da cura de tantas centenas de milhares de infectados a própria vida. Não são heróis, porque é lamentável uma sociedade que precisa destes. Mas são mártires, dos quais se têm alimentado e nos quais se têm alicerçado os melhores valores humanos.

Não bastarão, contudo, palavras elogiosas, derrame de generosidade e manifestações fugazes. Há de ficar marcada na mente de todos a necessidade de fortalecermos todos as políticas públicas de que o SUS é apenas parte. Não justifique a existência do Sistema Único de Saúde o enriquecimento dos grupos privados, que fazem da saúde (mas não só dela) apenas mais uma fonte de seu próprio enriquecimento. A reverência e o respeito, nesse caso, passam pelo engajamento de todos, mesmo os que sequer sabem onde há uma unidade sanitária do Sistema, na reivindicação por mais verbas. Qualquer reflexão que não leve ao comprometimento com a luta pela expansão e digna sobrevivência do SUS consistirá em tempo perdido. O jeito, aí, será esperar nova tragédia.

Que continuem os ganhadores de sempre, do alto de seus helicópteros e dos apartamentos luxuosos das casas de saúde a que têm acesso, usufruindo dos privilégios que a riqueza nem sempre licitamente acumulada lhes proporciona! Mas que se dispam da disposição de impedir que os outros, aqueles humilhados por sua arrogância e feridos de morte por seu egoísmo, vejam o dinheiro público trabalhar sempre e somente a seu favor. Daqueles de cujo trabalho decorre o fato de ser o Brasil de hoje um dos dez países mais ricos do Mundo.

O serviço postal brasileiro, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica são duas outras instituições às quais a sociedade ainda deve respeito, agradecimento e reverência. Fortalecê-los e fazer estancar, de uma vez por todas, o propósito malsão de pô-los a serviço dos endinheirados, estrangeiros alguns, será a melhor forma de retribuir o que têm feito, ainda que a contragosto dos que mandam. E seus cúmplices.

Tragédias, não há como negar, só raramente desabam sobre nós na forma de um vírus. A pior delas – o egoísmo que leva à desigualdade – é nossa conviva cotidiana.

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