Contradições e poluição*

As contradições do sistema econômico geram dúvidas exigentes de malabarismos mentais que, longe de resolvê-las, prestam-se a torná-las ainda mais graves. Os sábios da Economia, assim, põem em risco seus argumentos e sua credibilidade, esta com frequência construída sobre falsas bases. Manda o neoliberalismo em vigor permanente e cada dia mais vigoroso, tenaz em nem sempre limpo combate ao Estado. Essa abstração, que assegurou durante boa parte do século passado algum tipo de proteção a expressiva parte da população mundial, nunca deu conta integral de seu papel.

À crescente imposição das regras do mercado corresponde o acirramento da hostilidade contra o Estado. Ao invés de promover iniciativas estatais bem-sucedidas - e o wellfare state o diz -, os gurus do neoliberalismo optaram por destruir essa genial criação humana. No máximo, sua hostilidade e a voracidade dos seus representados cedem à captura do aparelho oficial pelos interesses que lhes dizem respeito. Estado, sim, desde que posto a serviço do processo de acumulação em vigor, de preferência aprofundando os resultados sociais conhecidos.

Esses, tão denotadores da injustiça, mantêm-se em caráter permanente se espraiam, a ponto de não escaparem mesmo dos menos informados. Óbvio que o uso da mentira como instrumento de gestão serve a esse propósito. Pior, não decorre de erro ou equívoco atribuíveis à boa fé dos agentes. Tome-se um só, mesmo numerosas as possibilidades, dos exemplos que atestam esse lamentável estado de coisas. Basta atentar para as análises que a Auditoria Cidadã da Dívida tem feito e divulgado e que a leva a criticar o PL 3877/ 2020. A coordenadora da Auditoria, professora Maria Lúcia Fattorelli tem feito incanasável cruzada contra o que ela considera um verdadeiro assalto. Só que, desta vez, o assalto é praticado contra o povo brasileiro, para a satisfação de cujas necessidades o governo alega a falta de recursos financeiros. Ao mesmo tempo, interessa-se pela aprovação do Projeto de Lei 3.877/2020, de autoria do senador petista Rogério Carvalho. Neste caso, trata-se de parlamentar filiado ao Partido dos Trabalhadores, o mesmo que comentaristas incautos ou desonestos consideram de esquerda. Esta, porém, é uma das muitas e inevitáveis contradições geradas pelo sistema econômico.

Por isso, como destaca Fattorelli, a premiação dos bancos com cerca de R$ 1,6 trilhões, enquanto o que resta de emprego vai sendo punido com a precariedade e a desproteção social. A circunstância a mencionar, como evidência maior da injustiça generalizada é o sucessivo desrespeito das instituições financeiras a pactos estabelecidos e compromissos assumidos. Mesmo contempladas com benesses sucessivas e ampliadas, tais instituições continuam cobrando taxas criminosas pelo crédito concedido, ainda assim liberados em níveis desprezíveis. Aqui, a constatação é do próprio sinistro da Economia. Paulo Guedes disse estarem os trilhões que o governo tem servido em bandeja de ouro cravejada de brilhantes aos rentistas, empoçados. Só não foi dito pelo falido "posto Ypiranga" do quão poluídas são essas poças. Porque, dado o nível de poluição, é quase certo gerarem outras formas virulentas, sempre fazendo dos pobres as mais numerosas vítimas.

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*Publicada em www.carlosbranco.com.br/Observador Participante, 05-12-2020.

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