Contradição em termos


No mínimo instigantes, as ideias propostas pelo sociólogo José de Souza Martins, em artigo recentemente publicado[1] devem merecer toda a atenção, sobretudo dos estudiosos dos problemas sociais. Heresia para os detentores das máquinas registradoras, a análise do Professor Emérito da USP traz a pelo aspectos que me parecem negligenciados pela maioria dos que pretextam preocupação relativa à realidade social com a qual convivemos.

Começa pelo título o desafio que o também Professor Emérito de Cambridge lança: O capitalismo inacabado. Significa reconhecer a interrupção de um processo em curso nos anos 1950-1960, período em que se tentava promover o nacional-desenvolvimentismo. Era incipiente ainda a busca de inserção vantajosa do País na direção da aldeia global. Digo-o eu, para acrescentar que um projeto de nação consistente animava a maioria da sociedade e nos levaria à participação no mundo globalizado de forma altaneira, segura e pacífica. Veio 1964 e pôs por terra tal objetivo.

Martins lembra pesquisas realizadas por antropólogos norte-americanos, desejosos de desvendar certa economia submersa, praticada pelas populações regionais, indígenas e camponesas. O que o autor do artigo chama nosso capitalismo. Na base dessas práticas, a subversão da lógica humanizadora da economia dos simples, levando à necessidade de decifrar as limitações da mentalidade que a domina.

Das observações feitas pelos estudiosos do Smithsonian Institute, o sociólogo brasileiro confronta o capitalismo da grande produção e de grandes lucros com o penny capitalism. O primeiro, negligente quanto à finitude dos bens, centra sua atenção na produção crescente, no lucro sempre maior e na acumulação permanente. A pobreza com fartura seria o oposto, como as descobertas dos antropólogos autorizaram admitir.

O conceito de bem limitado, assim, seria inspirador de práticas adequadas à satisfação das necessidades presentes, sem a destruição do que atenderá necessidades futuras.

Não ficam de fora da análise do Pesquisador Emérito do CNPq as variáveis políticas, com frequência ignoradas pelos economistas, econometristas talvez seja mais justo dizer. Nesse caso, a lamentável confusão entre capitalismo e democracia. A superação da Guerra Fria e a queda do muro de Berlim e fatos que a sucederam revelam a absoluta improcedência dessa proposital e bem elaborada confusão.

Disso tudo vem a afirmativa de José de Souza Martins: Não é o capitalismo que temos tido aqui. Justifica o arguto e oportuno analista, à luz das atividades dos bancos, indústria e agronegócio: “... (não) podem ser definidos como verdadeiramente capitalistas: deixaram de investir na preservação e expansão de um capitalismo social que lhes assegurasse a sobrevida sem o débito imprudente e anti-social da latifundização da propriedade da terra e da urbanização patológica porque destituída do que o capitalismo já possibilitou nos países civilizados”.

Antes de manifestar sua esperança de mudanças substantivas no sistema econômico pós-pandemia, o autor adverte: “Um capitalismo que não cria empregos nem desenvolve técnicas sociais de inserção produtiva e criativa da população é parasitismo lucrativo e nada mais”.

[1] Capitalismo inacabado. Valor Econômico, 26/02/2020, p.3.

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