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Conto do amanhã que chega


HOMORANA saiu do consultório médico cheio de esperança. Sentia-se compensado pelos dias de indecisão e medo. Aquela, por causa deste. Mal dormia, até decidir-se buscar auxílio de um profissional da Medicina. Afinal, para que eles servem, se não para curar nossos males? Ou, em muitos casos, tentar curar-nos, porque a exatidão não consta de seus planos e diagnósticos. Por mais super-humanos que se pretendam. Mas não restava a HOMORANA mais que a tentativa de reduzir suas dores, remover – quem sabe – seus males.

No caminho do laboratório, não foi uma nem foram duas as vezes em que abriu o envelope e leu a prescrição. Achou-se, a cada leitura, um felizardo. Então, seus males tinham remédio. Ainda que relutasse em admitir que a receita se referisse ao que conhecia por esse nome. Foi aí que se lembrou do que diziam seus avôs: o que não tem remédio, remediado está. Frase que durante muito tempo encarou como sentença de morte. Da morte que previa para muito breve, até que lhe fosse posta nas mãos aquela folha de papel onde cria estarem todas as probabilidades de novamente ver-se no mundo.

Ouvira ou lera, em livro, jornal, folheto comercial, revista ou rede social algo do que estava grafado quase ilegível na prescrição que levava nas mãos, enquanto o papel o levava à mais otimista expectativa. Sentiu-se mais leve, porque previu a primeira noite bem-dormida, desde que as dores começaram a incomodá-lo, como uma guerra sem quartel.

Mesmo as pernas, havia menos de três horas trôpegas, a dor insistente em um dos lados do dorso, a tontura que não o deixava quase manter-se de pé – tudo isso parecia render-se à simples caligrafia do médico. Animava-o a quase certeza de ter lido não nas entrelinhas da receita, mas nos indecifráveis garranchos nela contidos.

Já nem se dava conta do tempo em que, sucessivamente, suas entranhas eram invadidas por estranho e intenso mal-estar. Ora era uma pontada que lhe vinha do rim esquerdo e descia até o tornozelo; ora o refluir desagradável parecia romper-lhe a própria garganta. Quão desagradável aquela sensação de mau sabor, que inundava-lhe a cabeça das mais sombrias perspectivas! Quando não era assim que o filtro renal e muito mais de suas entranhas se comportavam, era quase certo ter seus líquidos retidos em algum lugar de que não sabia, ao mesmo tempo em que impunha dor. A mesma que, segundo as mulheres da família, só não era maior que a dor do parto.

Não foram poucas as vezes em que pensou estar chegando sua hora. Pelo tórax subia dor aguda, sempre relatada pelos amigos portadores de uma ou mais pontes abertas ao fluxo do sangue. E a vesícula, inimiga de seus melhores prazeres, como beber vinho, comer gorduras, ingerir cítricos e encher-se de doces!?

Era em tudo isso que HOMORANA pensava, enquanto seus passos levavam-no quase correndo ao laboratório escolhido pelo assistente. Lá, pensava, encontraria a cura de todos os achaques acachapantes sofridos nos últimos meses. Era como se sua vida estivesse à porta de um novo período, uma fase em que a alegria voltaria, o bem-estar o disporia aos esportes que tanto o tinham entretido na infância e na adolescência. Uma volta ao período em que, jovem, ainda, frequentava sessões de teatro e cinema, roda de conversa com os amigos, lugares públicos e igrejas, com a certeza de que é a essas coisas e a essas práticas que se presta (e se empresta de) melhor a vida.

Nem deu atenção ao endereço contido no envelope. Entrou no que lhe pareceu ser o lugar de onde sairiam os instrumentos de cura. Da sua cura. Enganava-se. Aquele estabelecimento não era mais que uma farmácia, como tantas encontradiças em cada esquina de sua cidade. Avançou alguns metros mais e, para não cometer outro equívoco, certificou-se de que era aquele mesmo o endereço procurado.

Quase perdeu a voz, tamanha a emoção do encontro. Não apenas porque não seria um encontro qualquer. Não estava diante dele a jovem e bela mulher há tanto tempo desejada. Nem um amigo há tempos ausente, de volta à cidade em que ambos fizeram o que de melhor a juventude tem para desfrutar. O homem metido em longa bata branca, a branca barba bem desenhada no rosto redondo e vermelho quase arrancou-lhe das mãos o envelope. Porque pressentisse a aflição e, ao mesmo tempo, a timidez e indecisão do cliente, o laboratorista tratou de antecipar-se. Não era o primeiro que ele atendia, nem diferente era seu aspecto. A experiência do homem do laboratório lhe ensinara a romper a timidez, também romper o invólucro da prescrição, como abertura de um diálogo em que a esperança surgiria como jamais esteve nas relações entre pessoas.

Antes de comentar sobre o conteúdo de seu trabalho, o técnico levou-o para uma sala reservada. Lá seria iniciado o verdadeiro tratamento daquele novo e impaciente paciente. De sua impaciência diziam o ar preocupado, os gestos repetidos com as mãos, o olhar posto em não se saberia dizer que ponto do horizonte, mesmo se tão próximo quanto possível, numa sala de poucos metros quadrados.

Ajeitados os óculos, o homem de bata começou sua explicação. Esse conjunto corresponde ao kit 32. O número nem sempre é aquele que melhor se ajusta ao organismo do paciente; tomamo-lo apenas como referência, daí a necessidade de fazer um exame, coisa rápida e rotineira, é nosso dia-a-dia. Uma espécie de radiografia a frio (permita-me usar a expressão). Simplifico: é como se o senhor estivesse deitado sobre um vidro de escâner, para ser possível olha-lo por dentro. Uma endofotografia, digamos assim.

O paciente mal se dava conta do que o homem dizia, tamanha sua perplexidade, tamanhas suas dúvidas, enormes suas esperanças...

Totalmente vestido com as mesmas roupas com que Adão percorria seu Éden, logo o paciente deitou-se sobre o vidro. Poucos minutos durou o ruído quase imperceptível que acompanhava o deslizar de uns olhos que ele não via, perscrutando cada cavidade de seu corpo, cada órgão – fígado, rins, pâncreas, estômago, intestinos, próstata, apêndice, bexiga... Uma viagem pelo universo físico de um Adão a que não faltava qualquer costela.

Voltaram os dois às mesmas cadeiras em que estavam antes sentados. E daí, doutor? – perguntou o intrigado enfermo. O senhor sairá daqui, não agora, mas duas semanas depois deste dia que sei memorável para o senhor, um outro homem. Foi a resposta.

- Por que só duas semanas depois, doutor?

- Como eu lhe disse, os números não são exatamente os das suas medidas. Precisarei confeccionar as peças que substituirão seu rim direito, seu fígado e seu pâncreas. O kit 32, de que lhe falei antes. Tudo, de acordo com a determinação do seu médico-assistente.

A volta para casa serviu à superação dos medos e da timidez anteriores. HOMORANA viu abrir-se enorme porta ao seu futuro. Ele sabia que sobreviveria, talvez melhor do que vivera até àquele momento, 56 anos. No caminho percorrido a pé, para melhor sentir o mundo à sua volta, pôs-se a pensar nos avanços da ciência, nos milagres da tecnologia. Quinze dias mais, e estaria comendo o que desejasse, bebendo o vinho que tanto o agradava, livre de dores, refluxos, tonturas e mal-estares que desafiam todo otimismo e alegria humanos.

Fosse ele um jogador de bicho, apostaria parte do seu salário no número 32, sua salvação. Não o sendo, sugeriria ao irmão, um viciado. Em jogar no bicho e em bebidas muito mais pesadas que uma taça de bom vinho. Sem dores, sem tonturas, sem necessidade de um kit, tivesse o número que fosse.

Até chegar em casa, imaginou como seria sua vida, sem o fígado com o qual nascera; vendo substituído o rim que tanto filtrara os líquidos ingeridos durante tantos anos. E com outro pâncreas, como se não contasse o tempo todo em que não lhe faltou o suco protetor, nem a insulina que alimentou tão bem seu organismo por tanto tempo.

Ao entrar em casa, saudou a mulher e os filhos, ansiosos: Preparem-se, em 15 dias já não me verão, porque eu deixarei de ser eu. Em meu lugar, vocês terão um novo exemplar de gente, porque assim o quiseram a ciência e a tecnologia; os doutores e eu mesmo. O diabo é saber se vocês aguentarão conviver com alguém que pode tornar-se imortal.

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