Conservar o quê?

Atualizado: 7 de Out de 2019

Começa hoje, no Vaticano, o Sínodo para a Amazônia. A liderança de um Papa como Francisco e seu insuspeito empenho em promover o avanço da Igreja atrai, mais que outros eventos internacionais, a atenção geral – de fiéis, Estados e populações espalhadas por todo o Globo.

Diferente de alguns dos seus antecessores, o cardeal Jorge Bergoglio entende impossível chegar ao paraíso celeste, se só o inferno está reservado para a maioria esmagadora ainda viva dos mortais. Daí sua preferência pela atenção às minorias e aos problemas sociais que impossibilitam a dignidade do homem, onde quer que ele se encontre, seja qual for a denominação religiosa a que dê ouvidos.

Desde quando chegou ao Papado, Francisco mostrou a que vinha. O nome escolhido para usar durante sua passagem pelo Pontificado jamais será esquecido, pois a ação do sacerdote se tem feito no sentido de seguir os passos do outro, o de Assis.

O poverello tem em Bergoglio um atento observador da cena mundial, os olhos, a mente e o coração focando as difíceis relações sociais que chegam ao absurdo de ameaçar a vida na Terra. É disso que trata sua encíclica Laudato si. Não fica apenas no problema ambiental, porém, o alcance das lentes, dos neurônios e das veias pulsantes do cardeal argentino. Ele vai além da mera preocupação com o desfrute do poder dado ao sucessor de Pedro. Esse engajamento e o propósito que o anima respondem pelo papel de importância que conscientemente assume, em um Mundo conturbado e ameaçado de voltar às cavernas.

Daí a inevitabilidade de ter postos na reunião das próximas três semanas temas da mais absoluta atualidade. A ação católica no Mundo e os óbices que ela enfrenta orientam a pauta do Sínodo, não deixando de fora a necessidade de crescente aproximação da Igreja com as populações. Em especial, as populações amazônicas, eis que a região onde se localiza a floresta tropical mais extensa e rica desempenha papel fundamental na sobrevivência do Planeta.

Esta é – digamos assim – apenas a dimensão geográfica. Mais importante que isso é a inclusão dos problemas e entraves que impedem o rebanho liderado por Francisco de atingir os fins que o Papa julga exigíveis, na Região e na Terra. Assim, a maior participação da mulher, a defesa dos direitos das minorias, a tolerância em relação a credos diferentes, a ampliação das oportunidades de homens e mulheres participarem mais ativamente da vida religiosa – e tudo quanto remete à liberdade e à dignidade da vida na Terra, levam ao Vaticano duas centenas e meia de participantes, dos quais 184 bispos. Não casual, a presença de Dom Cláudio Hummes, bispo emérito de São Paulo, é mais que mera manifestação de cordialidade!

Sabe-se quanta resistência Francisco tem sofrido, por parte dos conservadores. Dentro e fora dos postos eclesiásticos. Sabe-se, também, a quantas anda a desigualdade no Planeta. Pode-se, então, perguntar: conservar o quê: a fome africana? A opressão política e a corrupção, em várias partes do Mundo? A escravidão dos trabalhadores? A exclusão das pessoas do processo de decisão sobre seus próprios e legítimos interesses? A acumulação desenfreada e injusta? A crescente violência que mata jovens, indígenas, dissidentes, crianças por toda parte?

Francisco prefere conservar o que lhe terá ensinado o andarilho de Nazaré, tão bem ouvido pelo italiano nascido em Assis, seu inspirador.

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