Conservadores e sua definição


É indiscutível a devolução temporária da cidadania que o Bolsa Família do governo Lula proporcionou a milhões de brasileiros. Integração e ampliação de benefício monetário criado pela mulher do Presidente Fernando Henrique Cardoso, o programa de Luís Inácio Lula da Silva despertou apaixonada adesão, ao mesmo tempo fundadas reservas. Nem todos os que apoiaram a compensação dada aos mais pobres se deixaram levar pelo entusiasmo sem limites. Desde o primeiro momento, defendi o Bolsa Família, se a ele estivesse intimamente ligada política que assegurasse a manutenção dos beneficiados a trabalho que lhes rendesse salário mínimo justo, capaz, portanto, de cumprir o mandamento constitucional: suficiente para garantir sobrevivência digna ao trabalhador. Este, sabe-se, ainda hoje está anos-luz distante de consumar-se. Ao contrário, a gradativa perda da proteção social que deveria ter sido ampliada encarregou-se de confirmar as suspeitas de sua inconsistência. Ao invés de os beneficiários renunciarem à bolsa porque acharam lugar no mercado de trabalho, grande parte deles voltou à situação anterior. Isso impediu uma espécie de renovação dessa clientela, o que só ocorreria se em torno da Bolsa outras decisões de caráter – essas, sim! – efetivamente sociais (não apenas políticas e eleiçoeiras) a acompanhassem. Não foi o que se viu, como a realidade o demonstra. O resultado aí está. Mesmo sem apoio em pesquisas criteriosas e estudos profundos, arrisco apostar que dentre os muitos que um dia foram às ruas defender Lula hoje têm, igual conduta em favor de Jair Bolsonaro. A fome, ontem e hoje, jamais foi a melhor conselheira. Sem matá-la, no entanto, difícil fazer qualquer outra coisa. Com frequência, o pulso deixa de pulsar, como diz em certa canção o compositor e cantor Arnaldo Antunes. O peso de uma bandeira, tenha ela as cores que tenha, sempre será menor que o peso imposto pela fome a quem por ela é afetada. Com uma agravante para o atual Presidente: no tempo de Lula, a conjuntura internacional favorecia práticas resistentes à desigualdade, mesmo sem eficácia na liquidação da iniqua distribuição da riqueza. Agora, até a pandemia ajuda a quem a deseja manter intacta – os conservadores, por definição.

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