Comunhão

Absolutamente inoportuno e infeliz, o anúncio de desobediência às determinações da ANVISA por João Doria denuncia o clima polarizado a que se tem submetido a nação. Difícil aplaudir a bravata do governador de São Paulo, nada menos que uma pedra no pavimento em construção pelo Presidente Jair Bolsonaro, para permanecer no Planalto até 2026. Mordendo a isca, o emplumado político paulista concorre para seu próprio alijamento do pleito presidencial cuja campanha vem do primeiro dia de Janeiro de 2019. Ou, hipótese quase rente ao absurdo, Doria apenas expressa incerteza e, caso não concorra à Presidência trata de recolher os restos da disputa. Quem sabe a vice-Presidência, quem sabe a reeleição? Tudo isso, ou qualquer dos dois postos, em forte aliança contra os que hoje finge combater. Ao fim e ao cabo, Doria e Bolsonaro têm muito mais a aproxima-los que a afastar um do outro. Não bastasse o indispensável e tão bem explorado vínculo que levou o político paulista desdenhoso da Politica ao governo do Estado mais rico da Federação. O cabo de guerra entre os dois perde veracidade, porque normas cogentes em vigor não oferecem um só ponto de apoio na corda agarrada de um e outro lado pelos supostos contendores. Afinal, faz poucos dias, tentava-se blindar a Agência Nacional de Vigilância em Saúde. Dela, e somente dela, emanaria o disparo de abertura da vacinação. Todos, em toda parte, conferem o prestígio necessário ao desempenho criterioso da ANVISA, com sobejas razões presumivelmente baseadas no conhecimento cientifico. Por isso, uma agência sujeita aos humores autoritários dos que governam. Os gestos, declarações ostensivas ou sub-reptícias, ou apenas insinuações de Bolsonaro, portanto, resultaram em benefício para ele mesmo. João Doria sentiu o golpe, mas fez cálculo incabível até numa dessas lideranças empresariais cuja leitura não ultrapassa as páginas dos livros Diário, Caixa e Razão. Diferente do seu antigo apoiador, hoje aparente adversário, amanhã provável companheiro, o governador paulista tenta mostrar-se polido, veste-se segundo os cânones dos melhores figurinistas, usa a linguagem dos refrigerados salões sociais. Como se tem visto, sua ojeriza pelo povo, seu perfil autoritário e o pouco caso que ambos fazem das instituições democráticas e republicanas são patrimônio comum dos dois. Esperar que não estejam juntos, mais à frente, é o mesmo que enxugar gelo. Para ambos – e para a direita que eles representam – há frutos que ainda desejam colher.

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