Competência provada

Do que se tem lido, ouvido e visto nos principais meios de comunicação, resulta a impressão predominante de que para o Presidente Jair Messias Bolsonaro só uma coisa é relevante – e prioritária: assegurar a reeleição. Tudo o mais parece não passar pelas suas primeiras preocupações, nem mesmo as ameaças identificadas no cenário econômico. Se em 1992, a Fernando Henrique Cardoso só interessava alterar a Constituição para garantir novo mandato; em 2001, para Luís Inácio Lula da Silva nada superava a intenção de chegar à rampa do Planalto, agora o objetivo exclusivo de Bolsonaro e as ações necessárias ao seu cumprimento dão o rumo de seu governo. Fernando Henrique, melífluo e sofisticado, arrebanhou defensores da emenda constitucional ao largo de qualquer reverência à Constituição e, mais grave, com práticas de que ele um dia houvera sido acerbo crítico. De Lula é a Carta ao Povo Brasileiro, documento de renúncia dele e do seu partido, às posições antes duramente defendidas e rendição às imposições do capital. De Jair Bolsonaro, todavia, não se pode dizer fugir ou distanciar-se dos propósitos que animaram sua campanha. Defensor da tortura como instrumento do Estado, propagador dos benefícios que as armas supostamente trazem para a segurança pública, adversário declarado da Ciência, das Artes e dos Livros, dele não se poderia esperar coisa diferente do que tem feito, desde que pôs os pés na mesma rampa pisada antes por FHC e Lula. Nem que vá deixando pelo caminho velhos e até então fiéis apoiadores. Longe de ser um fenômeno desimportante, a manifestação até certo ponto hostil de suas bases em relação à escolha de Kássio com K Marques Nunes para a vaga de Celso de Mello diz mais do que aparentemente faz supor. Dos que ontem o apoiavam e hoje revelam descontentamento não é a responsabilidade pessoal por estancar a caminhada democrática. Fazer o País retroceder à condição de colônia, já se vê, exige desdenhar de eventuais exigências, secundárias em relação aos compromissos do governante. Malafaias, Macedos, Olavos, e outros sobrenomes são dispensáveis, até por serem facilmente substituídos. Sempre haverá Toffollis, Mendes, Mendonças, Nunes e Ribeiros aptos à substituição, sem que se altere o projeto – não de nação soberana e respeitada – temerário em que fomos metidos. Nesse caso, por enquanto somente nele, Jair Messias Bolsonaro se tem revelado muito competente.

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