Colonialismo trágico


A tragédia traz consigo, sempre, o que está no mais profundo da mente e do coração humanos (?). Aos exemplos de crueldade e desamor contrapõem-se ações dignificantes, expressas no amor, na dedicação com que o manifestam, na solidariedade que nos aproxima da fraternidade. Tudo isso tem sido visto, nos últimos dias. É preciso, todavia, que os bons sentimentos se revelem, mais que em palavras e proclamações vazias de sinceridade, na conduta das pessoas.

É certo que nem os médicos e seus auxiliares têm poupada sua vida, enquanto tentam manter a de tantos outros seres humanos. É igualmente constatável o empenho de outros, ignorando os riscos que pretendem impor a terceiros que não consideram semelhantes, crentes de que é certa sua sobrevivência. Desqualificam a ciência, zombam do sofrimento alheio, preferem ver seus negócios produzindo mais riqueza individual, mesmo trazendo consigo a condenação à morte – dos outros, daqueles que não são seus amigos, seus parentes, seus sócios, seus cúmplices – digamos assim, para não fugir à verdade.

Tem-se louvado pouco o que cientistas no mundo inteiro, não importam o país e a ideologia que os animem, porque o mais importante é salvar vidas e continuar salvando-as. Evitando, se possível, que a tragédia atual se repita. Do outro lado, olhos sempre postos nas caixas registradoras, alinham-se os ganhadores de sempre, aqueles para os quais uma tragediazinha que os poupe e aos seus acaba proporcionando bons lucros.

Qualquer pessoa minimamente informada seria capaz de arrolar centenas, milhares talvez, de casos ilustrativos do que é dito acima.

Refiro-me, primeiro, à provável liberação de estabelecimentos utilizados a pretexto de divulgar crenças religiosas, na verdade lojas de arrecadação de dinheiro, país afora. A dentro, também. Nessas franquias, há muito vem sendo praticada extorsão contra os incautos, os desesperados, os ignorantes, sem que o poder público disso se aperceba, quando não é o caso de pura negligência. A coação, física ou psicológica fragiliza o paciente. Todos sabemos disso. Pois esse tipo de coação é o argumento (se assim podemos chamar a essa monstruosidade) de uso corrente nesse tipo de “templo religioso”.

Outro exemplo vem da França, esquecido o mundo do lema proclamado em 1789 – liberdade, igualdade, fraternidade.

É dos meus tempos de juventude a pressão internacional contra o colonialismo, o francês inclusive. Ainda ressoa em meus ouvidos o verso do poeta paraense Ruy Barata: Ai, general De Gaulle!/Ai, general Salan!/Vossos bravos me torturam/na rósea luz da manhã,/vossos heróis sem Marengo,/vossas águias sem Wagram./Ai, general De Gaulle!/Ai general Salan!

Ouço de novo estes versos, quando sei de dois médicos conterrâneos de Sartre propondo sejam os africanos cobaias de experimentos científicos que podem levar à vacina contra a covid -19. Curiosamente, os primeiros a protestar e denunciar são profissionais que utilizam os pés (a cabeça, eventualmente) na agressão à bola de futebol, não à dignidade humana. Os nomes destes, digo-os com orgulho, devido sobretudo ao fato de que sua habilidade física não tolheu nem diminuiu sua capacidade de pensar. E amar o próximo. Ei-los: Drogba, Damba Ba e Etoo.

Para quem pensava morto o colonialismo, uma advertência: ele não foi erradicado da face da Terra; apenas vem vestido com novas roupas. Até em nome da vida – para uns; da morte – para a maioria.

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