Choques sucessivos

Quando nos acostumamos às coisas, pessoas e situações, vai-se perdendo a capacidade de ficar chocados. Tudo passa a ser aceito como rotina, a banalidade cobrindo o horizonte e fazendo-nos habituados a ele, seja qual for. Depois do holocausto a que vimos assistindo desde fevereiro de 2020, e das ações e omissões oficiais que a constituíram na maior tragédia experimentada pela nação, parecemos insensíveis. Fugir da sentença macabra ditada dos mais poderosos gabinetes (des)governamentais é o que basta aos náufragos involuntários posto em nau medíocre e insensata. O voluntariado, porém, é expressivo! A sobrevivência reduzida às suas dimensões físicas parece dispensar todos - os cúmplices e as vítimas - de tudo quanto configura e representa a dignidade humana. É como se o terror herodiano fosse expelido de seu sepulcro, para condenar o futuro de todos àquilo que só alguns aprenderam e teimam em impor aos seus contemporâneos: matar da forma que lhes parecer apetecível e prazerosa. Ainda não se encerrou o ciclo fatídico do vírus, nem esgotou o arsenal de armas com que se ajuda sua trágica trajetória, outra é anunciada. Mais uma vez, contra as crianças brasileiras. Não bastassem a desatenção proposital a que se as tem condenado, nem a tentativa de enxovalhar o aparelho social que lhes assistia, anuncia-se novo choque. Desta vez, o uso de terapêutica ainda mais discutível que as vacinas. A oportunidade de desviar as atenções do grave problema da vacinação contra a covid-19 dos menores suscita e estimula o anúncio do uso de eletrochoque em portadores nos que sofrem de autismo. Muitos deles, estejamos certos, com mente mais equilibrada que a dos promotores arrogantes a autoritários da matança por atacado. Renovam-se, por outro lado, os votos de fidelidade e compromisso com a morte. Não há mais choque, a não ser os que servem a esse propósito, que ser humano algum merecedor desse título seria capaz de ao menos cogitar. Monstros, seria melhor chama-los!

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