Chantagem manjada

O escandaloso saque praticado contra a Petrobrás ainda está longe de ter todos os seus caminhos, prejuízos e consequências conhecidos. Cada dia que se vive, mais se sabe dos vícios que ameaçaram (?) o prestígio justamente angariado pela empresa estatal do petróleo brasileiro. Por isso – e só por isso – ela não sucumbirá aos interesses espúrios que a cercam.

Se, em passado ainda presente na memória dos cidadãos, chegou-se a tratar da alteração do próprio nome da empresa, para facilitar sua entrega a capitais de fora, não se pense que hoje tais expedientes estejam totalmente removidos.

Dentre as muitas ameaças que pairam sobre a Petrobrás, há uma que raramente surge clara, como conviria no trato da coisa pública. Trate-se de petróleo ou não.

Aqui e acolá, percebem-se esforços destinados a socorrer interessados pura e simplesmente em fazer da estatal do petróleo fonte segura e forte de enriquecimento. Nesse caso, são utilizados mecanismos e argumentos que, nem por reiterativos, desestimulam a arriscada reivindicação.

Recentemente, liderança dos produtores de máquinas e equipamentos repetiu a cantilena tantas vezes ensaiada, sempre que a aventura lucrativa não deu certo. Algo que cheira a chantagem, como é hábito neste país em que tudo é permitido, menos a redução nos lucros exorbitantes ou a responsabilização dos que atentam contra os bons costumes.

O conluio entre dirigentes da Petrobrás com empresas acostumadas na prática de deslizes (sejamos condescendentes e elegantes) deu no que todos estamos sabendo. Beneficiários das falcatruas ainda não foram elencados de modo a completar o rol dos envolvidos. Nem por isso, os apanhados com a boca na botija admitem responder pelos seus delitos. Agrava a situação, porém, a conduta de terceiros envolvidos nos negócios, tenham ou não relação direta com a Petrobrás.

Refiro-me, especialmente, aos que mantêm contratos de fornecimento às empreiteiras de sempre. Sendo estas contratadas pela estatal, cabe-lhes encomendar máquinas e equipamentos necessários à execução dos serviços demandados pela outra, uma das mais importantes empresas do continente americano.

Legal e legitimamente impedidas de operar, pelo menos nos contratos objeto da bandalheira, as empreiteiras alegam não ter como pagar os compromissos assumidos com as fornecedoras. Estas, por sua vez, alegam dificuldades crescentes, que já configuram uma situação de caos.

Adivinhem quem pagará por isso! Óbvio – é como o leitor pensou: pagarão os trabalhadores, cuja dispensa já está sendo providenciada.

Essa a proclamação. Daí, anuncia-se a intenção de obter do governo e da Petrobrás o pagamento da fatura (entenda-se de modo genérico), sem o que o desemprego será inevitável. Pretensão e modus faciendi são conhecidíssimos. Só os tolos – ou, quem sabe? os acumpliciados – cairão nessa.

Por que os fornecedores das empreiteiras não buscam mobilizar os recursos que engordaram o patrimônio pessoal dos proprietários e dirigentes das suas clientes? Elas – empreiteiras e suas fornecedoras – só têm serviços contratados pela Petrobrás? Ou, ao contrário, sua qualidade lhes assegura portfólio diversificado?

Reafirma-se, portanto, o caráter meramente subsidiário do setor privado, incapaz de mover-se e manter-se, se o poder público exige o cumprimento do que a legislação determina e os bons costumes aconselham.

Muito disso decorre do hábito de agredir as leis e, mesmo assim, obter a tolerância dos governantes e demais agentes públicos. Este é um negócio que prospera, levando à recorrência da chantagem, que acaba por tornar cúmplices, também, as maiores vítimas da corrupção reinante – os trabalhadores.

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