Cento e vinte anos para não deslembrar

VI- O Campo – Ontem e Hoje


Resultante da peregrinação de Antônio Conselheiro e seu crescente séquito, Canudos surgiu à margem esquerda do rio Vaza-Barris, onde os romeiros pretendiam escapar à nova ordem jurídica e política, ao mesmo tempo entregues ao culto dos preceitos religiosos. O líder representava, mais que um simples gerente das coisas daquele povo, um organizador das bases sociais e orientador ideológico. Das tarefas próprias à gestão tratava Abade, um dos seguidores mais destacados de Maciel.

Interessante, original e instigante, a tese de doutorado[1] apresentado em 2001 à Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas – EAESP traz excelente retrato da paisagem do arraial. Mais que isso, da forma como aquele espaço e aquela comunidade eram administrados.

Paulo Emílio corrobora, com fundamento, o que informam outros estudiosos quanto ao agrupamento humano que vivia e trabalhava às margens do Vaza-Barris. Destaca o caráter igualitário da condução dos interesses dos habitantes, esclarecendo que lá não havia propriedade privada dos bens de produção, mas somente dos bens de consumo. Estes, resultantes do trabalho coletivo, eram divididos a todos, segundo suas necessidades.

Embora não seja bem essa a situação dos camponeses brasileiros, á de ser mencionado que as terras em que vivem já não lhes pertencem, nem individual, nem coletivamente. Proprietários que delas se apossaram, legal ou ilegalmente, mantêm latifúndios nem sempre produtivos.

Quando calha de a terra ser produtiva, fácil é constatar quão injusta é a distribuição dos resultados do processo produtivo.

Ocorre, ainda, de a terra ser considerada por grande parte dos seus proprietários (por contrato legal ou grilagem) como reserva de capital, mesmo se lavradores têm sido expulsos de áreas ocupadas faz décadas. Isso, quando não se registram condições de trabalho escravo.

Boa parte dos conflitos no campo tem sua origem na desigualdade social que condena os mais pobres à submissão e contempla os detentores do capital com facilidades para continuar a descabida exploração do braço humano.

Qualquer reação dos camponeses tem como resposta a mobilização das forças repressoras não raro promovendo chacinas, como as de Itumbiara e Eldorado dos Carajás o ilustram.

Agora, não há um líder, porque uma instituição, o Movimento dos Sem-Terra é que reúne e orienta os trabalhadores do campo. Também falta o componente religioso que conferia a Antônio Maciel o conteúdo messiânico de que ele era portador. Isso em nada altera as relações sociais entre as partes (proprietários, camponeses e forças oficiais), ainda que – e talvez por causa disso – do campo provenham recursos abundantes e participação expressiva no PIB brasileiro.

Passadas tantas décadas, a questão camponesa continua a ser percebida como problema policial, não social. Neste sentido, foi assim que os sucessores imediatos de D. Pedro II encararam a atuação de Antônio Vicente Mendes Maciel e seus numerosos seguidores.

No final do século XIX, a chacina foi mais trágica apenas pelo número de mortos – 24 milhares, ainda, das cerca de 24.000 que se instalaram naquele lugar, na época de maior afluência a quantos eram os habitantes do arraial de Canudos. Nem por isso, é de admitir-se a repetição das chacinas deste século, sobretudo porque às forças policiais cabe assegurar a paz dos cidadãos, nas cidades e no campo.

O número de policiais, fardados ou não, que têm morrido em combate reclama concepção mais adequada do papel das forças – não como repressoras da população, mas guardiãs da segurança dela. Mais não fosse, porque é dos tributos que os cidadãos pagam que vem o salário pagos aos profissionais da segurança pública e individual.

Parece oportuno lembrar o reaparecimento de pretensões messiânicas, não obstante a acelerada corrida tecnológica a que assistimos. Enquanto a indústria e outros setores da economia – e da vida – sofrem profundas alterações, em decorrência das conquistas científicas e de sua consequente aplicação em atividades do cotidiano da sociedade, surgem aqui e acolá indivíduos portadores de mensagens e propostas absolutamente incompatíveis com o pretendido racionalismo.

Outros Antônios Conselheiros ainda transitam pelas ruas das cidades brasileiras, em especial o interior. A desesperança que tomou conta de boa parte dos contemporâneos faz crescer as hordas romeiras, com o que pode ser o germe de novos movimentos sociais. Se os problemas recorrentes em nossa história não forem adequadamente enfrentados, nenhuma surpresa haverá, quando o conflito armado se estabelecer.

Tratar como questão policial as manifestações geradas pela desigualdade social não levará a mais que novas chacinas, patrocinadas pelo poder público e executadas ora pelos próprios agentes governamentais, ora pelas centenas de milícias organizadas por particulares, nas cidades e no campo.

Qualquer análise do passado só será válida se não pretender corrigir os erros a partir de visões que só os tempos atuais nos permitem. Cada época com seus costumes, suas peculiaridades, seus limites. Nem por isso se devem ignorar certos valores e modos de vida que permanecem atuais, como atuais são muitos dos problemas cuja origem remonta a tempos quase imemoriais.

O massacre de Canudos é bem um exemplo dessas realidades que, nem por decorrido o tempo, desapareceram do cenário político, econômico e social do Brasil.

O bem elaborado trabalho de Paulo Emílio Matos Martins, tantas vezes citado, mais o ensaio de Consuelo Sampaio (Canudos Cartas para a Barão, EDUSP, São Paulo, 1999) trazem luz aos episódios aqui descritos. Fazem mais, para a compreensão não apenas da guerra que reduziu a zero a população do arraial comandado por Antônio Vicente Mendes Maciel. Mostram, sobretudo, quanto remanesce o hábito de transformar em questão policial problema de caráter social e político. Apresentam-se, portanto, como advertência para que fatos semelhantes sejam evitados. De nada adianta estudar a História, se os eventos que a marcam ficarem à margem da consideração daqueles a quem cabe a decisão sobre problemas do interesse de toda a coletividade.


VII- Como Se Fossem Conclusões


Arrimamo-nos sobretudo nos dois autores acima mencionados, nesta tentativa de concluir o texto. Se Paulo Emílio descreveu o ambiente social mantido por Conselheiro e seus seguidores no arraial de Canudos, Consuelo Novais Sampaio[2] chama a atenção para fatos e percepções que o avanço do conhecimento das ciências do Homem obriga serem alterados.

Sem a intenção de esgotar as lições que um e outro desses autores nos oferecem, alinhamos em breves palavras, às vezes simplesmente transcrevendo-as das obras respectivas, trechos merecedores de leitura atenta – e muita reflexão.

O festejado ex-professor da EBAPE/FGV, atualmente da Universidade Federal do Rio de Janeiro destaca o talento administrativo de Conselheiro e a obra social que construiu no sertão da Bahia. Não o fez apenas tocado por motivação religiosa, nem porque se tratasse de um fanático, como parecia aos olhos de seus adversários. São de Paulo Emílio as palavras a seguir:

“O talento administrativo e pedagógico do Bom Jesus Conselheiro, bem como sua capacidade de planejar, organizar e dirigir a implementação de seu projeto de reinvenção do sertão podem ser resumidos pelos seguintes indicadores de desempenho...”[3]

A seguir, o autor de A reinvenção do sertão menciona as 20 obras construídas nas cidades e povoados em que pisaram os pés do andarilho. Eram muros, igrejas, cemitérios, capelas e açudes, em área de cerca de 25.000 km de extensão, no interior baiano. Duas cidades – o arraial do Bom Jesus, hoje Município de Crisópolis e o povoado Belo Monte, atual Município de Canudos.

Maior destaque deve ser dado à organização e direção de um sistema produtivo capaz de abastecer população que em quatro anos de existência experimentou o e3xpressivo crescimento de 10.335% de crescimento. Neste particular aspecto, convém mencionar que o arraial dispensava a propriedade privada dos meios de produção, ainda que Antônio Vicente fosse defensor da propriedade privada da terra e impedisse seus seguidores de apropriar-se das que pertenciam aos fazendeiros do sertão.

É oportuno, portanto, inserir trecho em que o respeitado pesquisador evidencia os valores a que se subordinavam os ocupantes do arraial:


É possível que a posse da casa e da terra tenha sido privada e o produto da terra coletivo. A única certeza é que muitas atividades eram realizadas em mutirão, em particular a construção das casas e o trabalho da terra.

“(...) quase todo mundo admite hoje que a organização econômica do arraial inspirava-se na tradição sertaneja. Em particular, o mutirão deve ter sido uma prática corriqueira, especialmente para o trabalho da roça e a construção das casas (...) Essa organização econômica, porém, foi provavelmente além da simples ajuda mútua no dia-a-dia, se admitirmos que o fundo comum institucionalizava a solidariedade ao permitir a redistribuição de parte dos excedentes”.[4]


Necessário realçar a equânime distribuição dos bens produzidos, que levou à reiterada constatação de que não havia fome no arraial de Canudos. Mais: a migração em direção àquela utopia, de tão expressiva, preocupava os proprietários rurais, que temiam não dispor de mão de obra para seus empreendimentos lucrativos.

Essa última circunstância ganha destaque no ensaio de Consuelo Novais Sampaio. Ao estabelecer diferença entre o que chama o medo costumeiro e o medo construído, a autora remete à comparação entre as formas utilizadas pelas elites dominantes para disseminar sua ideologia e mobilizar as forças defensoras do status quo. O primeiro tipo de medo é gerado pelas condições materiais em que vive o sertanejo (como as parcelas pobres da população, em qualquer região), expressas na seca prolongada, nas doenças endêmicas, na arbitrariedade policial, na perseguição política, no banditismo etc. O medo construído, cujo objetivo é enfraquecer e mesmo aniquilar forças adversárias, numa cruenta disputa pelo poder político no interior de uma mesma classe social tem nos órgãos de comunicação social (nas redes virtuais, atualmente) seu grande aliado.[5]

Ainda de acordo com essa autora, o elemento de maior expressão no medo construído é a grande propriedade fundiária. [6]

Esclarecedor é o seguinte trecho, colhido na página 35 do mesmo texto:

“...a comunidade criada por Antônio Conselheiro atingiu a propriedade privada, por feri-la naquilo que lhe conferia sentido, que a tornava produtiva e rentável: a força de trabalho”.[7]


O medo sempre esteve presente na vida dos interioranos, da Bahia e de todo o Brasil. A autora do ensaio que abre o livro por ela mesma organizado afirma, porém, que até 1893, os sertanejos experimentavam apenas o medo costumeiro. A peregrinação de Antônio Vicente Mendes Maciel, contudo, gerou o medo construído por interesses e ações políticas (que foi) aumentando e ganhando terreno.

Digno de menção o episódio a que Consuelo chama rebelião contra o fisco. Trata-se da desobediência civil manifesta na feira do Soure (10 de abril de 1893), quando a população negou-se a pagar impostos considerados exorbitantes, inclusive quebrando as tabuletas em que os valores estavam inscritos. [8]

Também não pode fugir aos nossos contemporâneos o registro de certo processo de pacificação do sertão, fonte de lucros inconfessáveis para alguns, nas palavras da autora do ensaio a que nos vimos referindo. Tal processo bem pode revelar certa similitude com o que vem ocorrendo, nestes primeiros anos da segunda década do sec. XXI, nas favelas da cidade do Rio de Janeiro.

Se é nosso desejo manter viva a memória, para evitar a reincidência em episódios lamentáveis de nossa História, não é conveniente nem sábio sonegar as informações disponíveis. Ainda mais quando produzidas com critério e rigor científicos e apurada percepção social.