Cento e vinte anos para não deslembrar

1ª Parte -

I – Introdução

Utopias existem. Sem elas, o homem não teria dado um só passo...

Formada no imaginário dos seres humanos, ela lhes assegura a disposição para enfrentar as dificuldades, vencer os obstáculos e chegar ao lugar desejado.

Da caminhada árdua e arriscada, do enfrentamento bravo, das tentativas tantas vezes frustradas nos dão conta as páginas da História. Até o dia em que o não-lugar é alcançado.

Ícaro teve as asas derretidas. Da Vinci não logrou tirar do papel o objeto voador que seu talento e sua visão antecipatória elaboraram. Nem Bartolomeu Lourenço de Gusmão pode ver sua passarola cortar os ares, tripulada. Depois, muito depois, a geringonça foi batizada helicóptero. Coube a Alberto Santos Dumont alcançar a utopia de tantos outros sonhadores. À parte outros que reivindicam para si a chegada a esse não-lugar: o espaço e o homem nele navegando.

Ao pisar na Lua, Neil Armstrong disse muito mais do que as palavras simples de sua frase expressavam: um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a humanidade.

Por isso, negar a utopia é negar a própria vida humana. É rejeitar a História. Pior que isso, é consagrar e congelar a realidade, como se ela fosse estática, imóvel, impossível de alterar-se. Hoje, sabe-se, nem mesmo as formações geológicas, que um dia se pensava imutáveis, têm tamanha dureza. Em períodos mais largos, rochas e montanhas também se movem, mesmo que não cheguem a ir a Moisés, quando ele se nega a delas se aproximar. Quem sabe não vão a outros deuses? Muitos dos quais, afirmam alguns, eram astronautas. Num certo sentido, o recente desprendimento de gigantesco iceberg tantas vezes anunciado dá exemplo literal do que Bauman chamou sociedade líquida.[1]

Quando, no final do século XIX, um grupo de andarilhos seguia Antônio Vicente Mendes Maciel no sertão baiano, não era mais que a busca desse não-lugar tão desejado que movia seus passos. Vivia-se época conturbada de nossa História, ainda que imaginar a possibilidade de tempos menos conturbados pareça também exagerada idealização da sociedade humana.

Ora é maior, ora é menor a velocidade com que se estabelecem e rompem as relações sociais; jamais elas estacionam. É destino dos homens caminhar, muitas vezes arriscando o retorno à estação anterior, inclusive. Disso nos dão conta fatos nem sempre perceptíveis à observação de todos. Quem faz o caminho é o caminhante, disse um poeta, Antônio Machado.[2] Quem o diria melhor? Dos passos para trás, dizem-nos os dias que correm. E nos fazem correr...

Não terá faltado a Antônio Maciel, depois chamado Conselheiro ou Bom Jesus Conselheiro[3], a visão de que um mundo melhor, menos desigual, em que os homens seriam livres. Era uma possibilidade que cumpria transformar em realidade. Incomodado pela proclamação da república e inspirado na doutrina atribuída a um de seus mais antigos predecessores, o Mago do Sertão[4] repetiu experiência havia séculos empreendida em várias regiões do Planeta, e que se repetiria depois.

Embora ainda hoje razão de permanente polêmica, os objetivos de Conselheiro estão por ver firmada sua procedência. Mesmo a carnificina imposta pelas forças oficiais contra o que consideravam risco à incipiente e claudicante república instalada, não desestimulou ações com propósito equivalente. Ainda hoje, o Brasil registra acontecimentos semelhantes aos que se ligam à Guerra de Canudos[5]. Ou a razões que alguns encontram como justificativa da instalação do arraial e, depois, de sua exterminação.

Quando se relembra o sacrifício de Antônio Conselheiro e seus seguidores, passados 120 anos do lamentável episódio, é oportuno passar a vista pelo País. Nele ainda se podem observar condições semelhantes às que prevaleciam no final do século XIX. Também soa oportuna uma comparação entre a situação vivida no campo, naqueles aparentemente longínquos tempos, com a realidade campesina brasileira.

Não que haja semelhanças capazes de transformar os acontecimentos de hoje em versão farsesca dos acontecimentos de ontem, naquele então do último lustro dos anos 1890. Não obstante, ao menos uma comparação entre aqueles e os atuais fenômenos, no mínimo permitirá compreender melhor aspectos pontuais da sociedade brasileira.

Nossa tentativa, portanto, será a de pôr em confronto o sentido daquele movimento, suas alegadas[6] causas, com políticas públicas e condutas privadas que levam à permanente tensão no interior do vasto território da terra um dia chamada Pindorama.

Quando, em 1997, rememoramos[7] a Guerra de Canudos, a esperança repousava no despertar de atenção e mobilização de consciências, em todo o território nacional, e em todas as camadas da sociedade, não apenas do mundo acadêmico. Talvez assim, os objetivos dos eventos se alcançassem mais expressivamente e dessem sentido à denominação de, pelo menos no Amazonas, alguns dos eventos programados: Canudos, Perdão! (2 Exposições de imagens); Lembrar, para não repetir (Seminário).

A história posterior mostrou a fragilidade do alerta pretendido, diante do avanço dos negócios no campo, que faz o Brasil sustentar sua economia nos moldes em que o fazia, durante o que se convencionou chamar Primeira República (1889-1930). A pauta de nossas exportações é representada majoritariamente pelos bens primários[8], cuja produção alterou tão profundamente as relações sociais, que há uma espécie de Canudos em miniatura (nem por isso, menos anacrônico) em muitos dos Estados, seja na região Norte, seja no Centro-Oeste, seja ainda no Sul.


II - O Que Fez De Antonio Maciel Um Andarilho

Destinado a seguir carreira religiosa, Antônio Vicente Mendes Maciel viu ruir esse projeto de seus pais, quando lhe morreu a mãe. Ele tinha apenas quatro anos de idade. O segundo casamento de seu pai, um comerciante, teria sido traumático para aquele menino nascido em 1830, em Quixeramobim. Depois da orfandade paterna, Antônio Vicente ficou à frente dos negócios da família. Deu-se mal, do que resultou a ruína dos negócios e processos por dívidas não pagas. Por isso, decidiu deixar a cidade natal. Não sem antes ser preso. A prisão, sob o pretexto de o andarilho ter cometido duplo homicídio – de sua própria mãe e da ex-esposa – ocorreu em Itapucuru (Bahia), de onde o Conselheiro foi deportado para Quixeramobim.

Depois de perambular por cidades do sertão nordestino, pregando a palavra de Cristo e atraindo cortejo de pobres de toda origem – escravos recém-libertos, camponeses explorados, negros e índios -, Antônio estabeleceu-se em um vale no lado norte do rio Vaza-Barris. Lá, criou o que chamou de Belo Monte, embora esse nome guarde enorme distância da configuração fisiográfica do lugar.

A essa altura, já o chamavam Bom Jesus, Conselheiro ou Antônio dos Mares. A cada movimentação do séquito, mudava seu paradeiro; mudava também o nome pelo qual passavam a conhecer aquele andarilho pregador.

Foi na localidade Canudos que se ergueu uma verdadeira comunidade, marcada por espírito fraterno, a ponto de impedir a exploração de um pelo outro e em que o carisma do líder assegurava a paz social. Não havia pobres, ali. Todos trabalhavam e comiam o suficiente para sobreviver com dignidade. É o que nos mostra a maioria dos autores que tratam do assunto, podendo-se considerar Paulo Emílio Matos Martins o mais explícito dentre eles.[9]

Como em muitos locais do Brasil que se jacta de ser moderno, a presença do Estado era quase nenhuma, pelo menos no que concerne à satisfação da população e à igualdade reinante. Assim se orientava o Arraial de Canudos.

Talvez porque tenha insistido ainda no propósito de tornar-se religioso; talvez porque se tenha dedicado às contendas jurídicas, quando rábula; talvez em razão do sofrimento que sua madrasta lhe teria imposto, na primeira infância ainda – o fato é que as andanças de Antônio sempre despertaram suspeitas e hostilidades dos governantes e da Igreja.

Os primeiros, empenhados em tirar proveito da recente proclamação da república, os outros pela perda de controle da comunidade cristã, trataram de impedir que o grupo liderado por Antônio Vicente acabasse por lhes tirar o espaço – aí, não mais religioso ou administrativo, apenas. O espaço político em que operava o andarilho poderia causar-lhes (aos religiosos e aos governantes) muitos problemas.

Mesmo entretido com a direção de grupo tão expressivo (na sua fase de maior movimento, estimadastivamente 24 mil pessoas), Conselheiro encontrava tempo para escrever comentários sobre várias passagens da Bíblia e divulgar muitos dos preceitos atribuídos aos evangelistas e outros santos da Igreja Católica. Muitos dos que estudam a personagem e seu movimento identificam naquele homem do sertão qualificação por alguns rejeitada. É o caso, quando se diz que ele sabia grego e latim, teria lido Morus, Proudhon, Owen e Fourrier. Aí poderia estar argumento favorável à intenção de criar na Terra o que Jesus Cristo antes tentara – uma sociedade igualitária e livre.


III- O Conflito

Diante das circunstâncias acima descritas, não é difícil admitir a multiplicidade de causas apontadas como determinantes do enfrentamento que em 1997 teve seu ponto final.

Para uns, a simpatia pelo governo monárquico, e a consequente hostilidade ao regime republicano levaram Antônio Conselheiro e seus acompanhantes à contestação da recém-instalada república.

A criação de uma comunidade em tudo destoante do que propunham os novos governantes aparecia aos olhos destes como inadmissível desobediência. Era necessário combate-la, até o extermínio.

Outros, no entanto, atribuem a certo fanatismo religioso a pregação que levou aquele membro da família Maciel a penetrar o sertão. Se isso não fosse manifestação de um estado mórbido que muitos vinculavam a enfermidades mentais da mais diversa denominação. Era ele um paranoico? Seria um louco de pedra, como tanto se diz?

Pedras, ao que se soube e sua obra atestada por quase todos os que sobre ele e seu movimento escreveram, foram por ele apanhadas, sim. Só que no afã de construir igrejas, muros e cemitérios em todos os lugares por onde passava. Era essa a sua prática.

Da loucura, os especialistas que se deram o trabalho de estuda-lo não chegaram a qualquer conclusão digna de registro.

Resta, então, imaginar que a liderança de Antônio Vicente Mendes Maciel juntava ao carisma a experiência acumulada, primeiro como gerente dos negócios paternos; depois, como advogado prático (rábula) e professor de escola primária em um dos locais por onde passou. Tudo isso, misturado com a sensibilidade social de que era portador, terá levado Conselheiro à criação do Belo Monte e à imposição dos valores que, hauridos na doutrina pregada por outro andarilho, dezoito séculos antes dele, gerou a aversão e a furiosa hostilidade dos que o atacaram.

Instalados desde 1893 em sua Pasárgada avant la lettre, Conselheiro e seus discípulos (súditos? cúmplices? asseclas? jagunços? capangas? companheiros?) recebem a primeira investida das forças oficiais. Comandava-a o Tenente Pires Ferreira..

Em Uauá, as tropas do governo foram rechaçadas pelos “fanáticos”, como os chamavam seus inimigos. A despeito da desproporção das perdas humanas (150 dos conselheiristas contra dez, entre militares – oito – e guias das forças do Estado). Conflitos corpo-a-corpo estiveram presentes naquela margem de rio transformada em teatro de guerra. Chegou-se ao exagero de proclamar que a lagoa do lugar, na Serra do Cambaio (depois chamada Lagoa do Sangue) tornou-se vermelha, tingido pelo sangue dos combatentes mortos às suas margens. No segundo ataque, era o Major Febrônio de Brito quem estava à frente das tropas governistas.

Pouco mais de um ano mês após o primeiro fracasso do governo republicano, nova tropa foi incumbida de enfrentar a feliz população do Arraial. Dessa vez, chefiou as tropas do Exército Nacional o coronel Moreira César, cujo cognome dá ideia do horror em que se constituiu o conflito, naquele momento: Corta-cabeças.

Moreira César se tinha notabilizado pelo desempenho na Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, por isso sendo a ele dado o posto de comandante da terceira investida contra Canudos.

Acostumado à guerra convencional de seu tempo, o oficial acabou morto. Tiros desferidos por algum dos guerrilheiros (porque não foi outra coisa, se não uma guerrilha) de Conselheiro, o mataram em plena ação bélica. Foi quanto bastou para a debandada. No seio da comunidade canudense firmou-se ainda mais a crença na santidade do líder nascido em Quixeramobim. Apesar das divergências, creio que a surpresa de que se utilizavam os combatentes de Canudos e suas habilidades e maneabilidade no terreno dão aspecto de guerrilha à sua luta.

Em abril de 1897, então, o governo montou uma expedição de que participariam algumas das guarnições das recém-criadas Polícias Militares (Bahia, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Amazonas, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul), em reforço às tropas federais. Todas contavam com os equipamentos mais avançados da época. Pesquisadores respeitados afirmam que se comprova apenas a participação direta das polícias militares do Amazonas, Pará, Bahia e São Paulo.

Desde o início, era fácil perceber a intenção de desencadear operações voltadas à terra arrasada. Basta dizer que o próprio Ministro da Guerra comandou as operações. O marechal Carlos Machado Bittencourt instalou-se no Monte Santo, às proximidades de Canudos, em agosto de 1897. Levava ele, como reforço, mais 3.000 combatentes.

No início de outubro daquele ano, quase 6.000 militares, depois de tomar as ruínas da “igreja nova”, foram surpreendidos pelos atiradores surgidos de túneis cavados pelos comunitários. Dia 5 desse mês, porém, foram mortos os quatro últimos sobreviventes. Dentre eles não estava Antônio Vicente Mendes Maciel, que (supõe-se) a disenteria teria matado em 22 de setembro.


[1] BAUMAN, S. Danos colaterais. Desigualdades sociais numa era de globalização. Zahar Editores, Rio de Janeiro/RJ, 2013. [2] ANTÔNIO MACHADO, poeta.... [3] BRANDÃO, A. nega evidências de que tal denominação tenha sido, de fato, algum dia atribuída a Antônio Vicente Mendes Maciel. (A sociologia d´Os sertões, Artium Editora, Rio de Janeiro/RJ, 1996). [4] Como o chama o escritor francês Lucien Marchal, autor de livro com esse nome: Le mage du sertão (Paris, France, Librairie Plon, 1932). [5] Uma denominação no mínimo inadequada, quando se avaliam as forças em combate. O resultado, a destruição do que se chama Arraial de Canudos e o massacre de toda sua população, o revela. [6] Alegadas, porque depende dos analistas e historiadores a preferência por atribuir o movimento de Antônio Maciel a causas diversas. Não falta quem o veja como antirrepublicano, como há os que o veem como um fanático religioso. [7] Refiro-me, aqui, aos eventos rememorativos realizados em vários Estados Brasileiros (na Bahia, mais expressivamente), pelo Núcleo de Estudos da Administração Brasileira- Abras, sob a coordenação do Professor PAULO EMÍLIO MATOS MARTINS. O Amazonas foi o segundo Estado, em número de eventos, a lembrar aquela página triste da história. (V. o apêndice). [8] Commodities, chamam-nos os que preferem a língua inglesa. [9] MARTINS, P.E.M. A reinvenção do sertão. FGV, Rio do Janeiro/RJ, 2001.

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