Cartuchos


Não vi mais que curta notícia sobre acontecimento que me parece relevante, no momento político. Refiro-me ao Decreto que amplia a quantidade de balas que a pessoa física pode comprar. Inexistissem tantas evidências das agressões ao Estado democrático de Direito, houvesse o mínimo de dignidade no exercício da Presidente da República, correríamos o risco de ser chamados conspiracionistas. Mas a vida e as experiências que ela proporciona aos que gostam de aprender cobram de mim análise cuidadosa, atenta em especial ao que parece prosaico. Mas não é. Militante da política universitária em 1964, integrei o grupo que persuadiu os alunos da Escola de Agronomia a entrar na greve nacional declarada pela União Nacional dos Estudantes - UNE. Dirigimo-nos para o local onde funcionava o estabelecimento, dentro da área do Instituto Agronômico do Norte – IAN, com uma única arma, exigente de esforço mental, não dos dedos: o argumento.

Antes de nos dirigir às matas distantes do centro da cidade, fôramos informados da presença, nas terras circundantes do IAN, de universitários filhos de fazendeiros, armados para nos rechaçar. Mais nossa ousadia que nossas convicções removeu o menor medo que nos impediria de cumprir aquela missão.

Instalada a ditadura, logo soubemos quanta arma havia sido adquirida e quantos fazendeiros trataram de prevenir-se contra qualquer resistência ao golpe de Estado. Mais tarde, já pela voz neste caso autorizada do próprio condestável do golpe no Pará, Coronel Jarbas Gonçalves Passarinho, soube-se que oficiais do Exército Brasileiro treinavam as tropas paramilitares. Tudo acontecia em um sítio, localizado no Tapanã.

Hoje, decorridos quase 40 anos desde que a luz escorraçou a escuridão, vêmo-nos diante de fatos que, por sua multiplicação e sucessão, não podem passar ao largo de nosso olhar. Por exemplo: reiteradas declarações de amor à tortura e culto aos que a praticaram; criação de um círculo de generais em seu entorno, na esperança de mostrar-se forte; arrebanhamento de uma coorte de ingênuos, incautos, desonestos, delinquentes, desinformados, ignorantes por preferência para agitar as ruas e intranquilizar a população, em fase aguda da pandemia; insistência na aprovação de leis destinadas a incentivar o comércio de armas. Desautorização de ato que atribuía ao Exército Nacional a responsabilidade pelo registro e monitoramento de armas e munições. O que mais falta para impedir o surgimento dos Tonton Macoute brasileiro?

Por tudo isso, deve ser dada maior importância ao decreto quase obscuro que facilita aos proprietários de armas deixarem seus paióis fornidos.

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