Carrascos, não menos

Manaus, já não há qualquer dúvida, investe-se hoje do pior papel na tragédia chamada pandemia. Aquilo que a comunicação chama epicentro do fenômeno. Lamente-se o destino a que as autoridades públicas e seus cúmplices trouxeram a cidade, onde os números tanto assustam, quanto põem à mostra a índole de certa gente. Se chama-los assim não é apenas força de expressão. Erros administrativos, inadmissíveis em quem se credencia a postos públicos eletivos, acabam por tornar-se menores, diante do cenário quase surreal em que vivemos. Não se trata, agora, de reiterar as suspeitas e denúncias de que fulano ou sicrano é incompetente, despreparado, tosco. Essa é verdade já sabida, incapaz no entanto de evitar que pessoas (?) assim conhecidas cheguem às posições a que chegaram. Resta, então, apreciar a conduta desses mesmos agentes, quando novos problemas desafiam – não mais competência, preparo, vocação analítica que se sabem inexistentes. Trata-se de identificar as razões primeiras, e últimas, asquerosamente distantes das que seriam exigíveis de TODOS os agentes públicos. Até prova em contrário, e diante do que se tem sabido sobre o uso da vacina a tanto custo recebida pelas autoridades amazonenses, o imunizante corresponde à guilhotina, aos fuzis, à forca, às câmaras de gás dos nazistas. Nossa surrealidade, ao final, mostra-nos tragicamente criativos: escolhemos nossos próprios carrascos. Alguns (óbvio ululante, diria Nelson Rodrigues), dispensados de usar outras máscaras, não fosse a que a natureza lhes pôs cobrindo a fealdade – aparente e intrínseca.

4 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

O novo assustador

Atemoriza-me mais que tranquiliza a manifestação da maioria dos profetas de nossos dias. Falam em novo normal, e têm dificuldade em apresentar alguma coisa que seja portadora de novidade. A normalidad

Os imprestáveis

A matança de mais de seis milhões de judeus de quase nada terá servido. Como seria prova evidente de ingenuidade exagerada ou rematada ignorância esperar algum bom legado após os milhões de mortos alc

Boa hora

Circula nas redes sociais documento assinado por Frei Betto, integrado à Campanha da Quaresma. Além das denúncias formuladas pelo lúcido e incansável pensador católico, a mensagem traz um apelo, em

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.