Carnaval e morte

Várias capitais brasileiras suspenderam a vacinação, ontem. Os motivos da suspensão vão do atendimento de pedidos feitos pelo pessoal da saúde pública até a falta de vacinas. No primeiro caso, é justo imaginar quão cansados estão os profissionais, envolvidos no que muitos consideram uma guerra contra a covid-19. No outro caso, por desinteresse dos que entendem de guerra, que negligenciaram o suprimento da necessidade de imunizadores, quando era mais fácil adquiri-los nos países fabricantes. Outra frente – que muitos classificam como econômicas, embora seja mais adequado chama-las monetárias – foi a preferida, porque assim o exige o obsceno processo de acumulação tão vigorosamente defendido pelos que apostam na morte. Desde que, é lógico, esta não os procure nem diminua suas próprias famílias ou seu círculo mais próximo de amigos. Não é preciso muito esforço para entender algumas das razões por que só ontem a pandemia produziu 31% dos mortos nestas terras outrora longínquas onde se prefere furar filas de vacinação, no atacado e no varejo. Durante todo esse trágico período inaugurado em março de 2020, desnudaram-se vários fantasmas escondidos não nas máscaras protetoras recomendadas por quem entende de saúde pública, mas nos interesses que, animando certo segmento minoritário da sociedade, sobrepõem-se à sobrevivência de ampla maioria. Não é outra a mensagem colhida do episódio ocorrido em Minas Gerais, apenas a forma grupal de burlar as leis e escancarar o exacerbado egoísmo que tem marcado nossos dias. O exemplo do varejo foi dado desde que as primeiras vacinas chegaram ao País, quando políticos e seus apaniguados, desavergonhadamente, mostraram o desdém nutrido pelos mais fracos e mais expostos aos riscos da covid-19. De país do carnaval, povo alegre e festeiro, corremos o risco de ostentar para espanto da sociedade internacional, uma nação com face entristecida e dedicada ao culto da morte, tendo-a como orientação e meta governamental. Já não nos número de sepulturas desejadas e anunciadas, 30 mil cadáveres, mas meta muito mais ambiciosa, como os registros dos mortos pela pandemia registram.

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