Carências mal resolvidas

Talvez porque nada entenda de Psicologia, acredito na existência de carências que tentam compensação em áreas e atividades aparentemente alheias às da necessidade insatisfeita. Estes tempos pandêmicos têm servido à frequente observação desse fenômeno, segundo meu particular entendimento. Testemunho colocar-se a virilidade (ou a carência dela) no centro das atenções de muitos políticos, ocupem o posto que ocuparem. Mostrar-se – ou pretende-lo – imune a enfermidades, por suposto histórico de frequência nos pódios esportivos é uma dessas manifestações que podemos chamar compensatórias. Às vezes, desafiar a gravidade da doença e desdenhar do sofrimento imposto aos que a contraem faz o mesmo efeito. Ocorre, em alguns casos, do aparecimento de mecanismos de compensação similares, sucessivamente, revelação de que ainda não foi ultrapassada a carência original. Uns e outros desses carentes disputam entre si o cetro da vitimização. Como se não estivessem desmentindo declarações anteriores, porque a persistência do mal que os incomoda segue em frente. Convém aqui lembrar o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, criador da expressão mimimi, sempre que encontrava obstáculo ao exercício e manutenção do poder. Com mais conhecimento a respeito dos problemas e processos sociais, a conduta não diferia dos demais, sabidamente ignorantes, a justificar certo conceito emitido por professor já morto, que deixou marcadas em mim algumas de suas mais inspiradas frases: a ignorância dele cabe em imensa biblioteca. Era assim que ele dizia de alguns dos seus contemporâneos. O mimimi, em tempos de pandemia, migrou como têm migrado populações africanas, tocadas pela violência das armas ou das relações sociais. Os machões de ontem, açoitados pelo relho da vida real recorrem ao mesmo expediente, deslembrados de que recomendam e defendem a ação mortífera dos agentes da Lei, sempre que individualmente considerem delinquente os de quem não gostam. Ou, em outro cenário, os que lhes podem criar obstáculos para a subida ou permanência no pódio político. Bandido bom é bandido morto – dizem eles, em geral com o ódio a extravasar-lhes o globo ocular, ilustração do quão é extensa a carência que os maltrata. Os mais recentes exemplos desse mecanismo captado pela minha ignorância sobre temas psicológicos vêm do Presidente Jair Bolsonaro e de seu ex-aliado Wilson Witzel, desgovernador do Estado do Rio de Janeiro. Autoritários ao extremo, simpáticos e defensores da solução armada dos problemas sociais, afeitos a processos antidemocráticos, nem titubeiam. O primeiro tenta mostrar-se vítima de campanha para derruba-lo, enquanto o fogo devasta nossas florestas, aliando-se à gripezinha de que ele mesmo desdenhou. Não sei o que dizem os órfãos e os viúvos, os parentes e amigos dos quase 140 mil mortos pela covid-19. O outro, eleito na carona do barco eleitoral de Bolsonaro, também se diz vítima de um complô. Sequer é sensível às provas coletadas pelos agentes policiais. Se ainda falta o pronunciamento dos deputados fluminenses, também ainda não se conhecem respostas convincentes ao até agora apurado. Assim, à pandemia acrescenta-se a epidemia nacional do mimimi.

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