Caça e caçador

Os recentes acontecimentos do Chile são pródigos em lições. A primeira delas diz respeito à qualidade das elites daquele simpático país. Em essência, elas em nada diferem de suas iguais em toda a América Latina. Vorazes, insensíveis, extremamente egoístas e hostis a tudo quanto delas se afasta, as elites julgam-se donas de tudo. Não lhes tem bastado a apropriação dos bens públicos, dos postos políticos mais influentes, dos meios de comunicação. Por isso, entendem-se igualmente detentoras de direitos sobre a vida e a morte de todo cidadão. Ajuntam à desumana exploração do trabalho alheio a convicção de que às questões sociais nenhuma resposta será melhor que o uso das armas. Por isso, juntam-se aos que as detêm e incumbem-nos de fazer o serviço que acham o mais adequado à contenção dos insatisfeitos.

Uma vez instalados no poder, os políticos – de lá e de tantos outros países – voltam-se contra os próprios cidadãos que os elegeram. Pior, ainda, quando se trata dos que a eles se opõem. O que seria a vontade da maioria, portanto, substitui-se rapidamente pelo interesse de ínfima minoria, quando não o de cada um dos próprios inapropriadamente chamados representantes populares. Só isso explica o fato de terem sido votadas e aprovadas leis em tramitação havia anos, no Congresso chileno. Em ritmo tão veloz que jamais alguém sensato imaginaria possível ocorrer.

Não se pense, porém, que a situação crítica será resolvida tão prontamente. Os restos da ditadura de Pinochet têm presença certa no cenário político do Chile, como o tem em vários outros dos estados nacionais da América do Sul.

Enquanto foi possível a Piñera deter a rebelião popular à força das armas, não se pejaram governo e políticos em matar pessoas nas ruas e aplaudir os que as matavam.

Como informam de Santiago, a cada ferido revelavam-se dez novos protestantes. Isso levou à grande manifestação que, em quase todas as cidades de lá reuniram cerca de um milhão de contestadores.

O que fez o biliardário Sebastian Piñera? Veio a público, pediu desculpas e devolveu direitos que seu governo havia negado, em nome de medidas econômicas semelhantes e da mesma raiz das que o ex-assessor do general condenado pela Justiça chilena adotou.

Era de esperar a reação que os conservadores vêm divulgando. A inspiração da rebelião chilena seria devida à ação de agitadores internacionais, não à situação de miséria que o credo neoliberal implantou naquele país. Por que, ao invés de pôr as forças armadas e os carabineiros nas ruas, Piñera não tomou a iniciativa de propor melhor distribuição de renda e reduzir a desigualdade?

Ao fato de ter reagido somente quando as ruas passaram a agitar-se, se somado à recente declaração de que seu país é um oásis de paz e de progresso, diz bem das intenções do Presidente que sucedeu Bachelet. Ele prefere perder os anéis a perder os dedos. Nada, portanto, que indique convicção ou tolerância. É, apenas, o gesto dos acuados, em geral os mais bravos quando sentem que um jato de água ou o disparo de uma arma de fogo já não consegue paralisar a ira bona de que falou Santo Tomás de Aquino.

Ainda é cedo para dizer-se como será superada a crise do Chile. O que é certo, todavia, é imaginar quão difícil será para Piñera e os outros, qualquer seja o país, continuar explorando e exaurindo os recursos (dentre eles, os humanos), apostando apenas na força das armas. Ideias jamais são vencidas. O tempo lhes tem sido favorável, apesar dos recuos incidentais.

A história é prenhe de exemplos do ditado popular: ao dia do caçador, sucede o da caça. Política (com P maiúsculo), repito: é o exercício da vontade. A vontade de quase todos jamais será menor que a de um pequeno grupo.

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