Céus e condor, povo e praça.

Os avanços da direita em vários países vêm dando a impressão de refluxo. Tornou-se insustentável neles manter as políticas determinadas pelo correspondente avanço do capitalismo. Efeito tardio do desfazimento do wellfare-state da Europa Ocidental, as ruas de influentes cidades dos países têm atraído multidões interessadas em participar das decisões que lhes dizem respeito. Sinal do que temos chamado declínio da representação popular, o fenômeno é considerado por crescente grupo de analistas e cientistas políticos como danoso à própria democracia. Iascha Mounk, um respeitável e respeitado estudioso norte-americano o diz com toas as letras. Aqui e acolá, inclusive em ouros continentes, cresce o grupo de manifestantes. Seja qual for o pretexto usado - desde o aumento de uns poucos centavos na tarifa do transporte coletivo ou o assassinato de um negro por policiais ou agentes de segurança privada -, aos poucos fica transparente o divórcio entre os interesses coletivos e sua suposta representação política, no Parlamento e no Executivo. De sua parte, a princípio resguardado em suas funções, dentre as quais a mediação entre conflitos em que se envolvam esses poderes, o Judiciário não consegue evitar o contágio. Deixa-se, por isso, impregnar dos mesmos valores que orientam a conduta dos agentes dos outros poderes republicanos. A função precípua dos seus órgãos superiores - em todo caso incumbidos do controle constitucional - acaba por desviar-se, repetidor que é das mesmas práticas que viciam seu pares constitucionais. Isso leva a coletividade à sensação de orfandade. Desafia, em consequência, a formação de lideranças minimamente informadas sobre a realidade e o funcionamento das instituições. Sobretudo, conhecedoras dos limites e restrições hoje impostos ao cumprimento dos mandamentos constitucionais. O desejo de vê-los sadiamente estabelecidos e rigorosamente cumpridos é outra das virtudes de que tais lideranças devem apresentar. Isso, penso, será resultado de ação que só o espaço das ruas pode assegurar. A praça, dizia Castro Alves, é do povo, como o céu é do condor.

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