Benchimol relembrado


Mais de meio século depois, a economia do Amazonas ameaça voltar ao que um dia já foi. Além de produzir riqueza e entesouramento e aprofundar a desigualdade, multiplicou e alastrou os problemas que enfrentávamos antes de 1967. Mais que isso, produziram-se manifestos, memoriais, títulos de cidadania e medalhas a valer, e excepcional esvaziamento do interior. A recusa em diversificar a produção e inovar, muitas vezes escondida em proclamações tonitruantes de amor à região, empurrou-nos para a situação atual. As perdas econômicas causadas pela pandemia da covid-19, se ensejam declarações baseadas em evidências que não se concretizam, não indicam uma só ideia capaz de superar o que o velho e respeitado professor Samuel Benchimol chamou de monocultura industrial. Não se vê, no horizonte próximo, qualquer indício de diversificação, expansão e acréscimo aos segmentos industriais existentes. Todos choram o leite derramado, rezam aos céus para que um milagre nos salve e afaste do retorno ao porto de lenha, sem que se sinta qualquer som ou acorde que nos desperte da letargia. Torrinho e Aldísio sabem fazer melhor.

A queda do PIM (este nome a única alteração no “modelo”, de quê?), comparados os meses de março de 2019 com o deste ano, alcançou 46,8%. Abril trouxe resultado ainda pior: menos 52,9%. É certo que só dois Estados apresentam resultado favorável, o Pará (4,9%) e Goiás (2,3%), comparados os meses de abril e março. A queda nacional registra 18,8% para o mesmo período. O desempenho do PIM só foi pior em 2002, segundo as próprias entidades de classe ligadas ao setor industrial.

Enquanto isso, o Tribunal de Contas da União revela o que chama sangria dos cofres públicos. A hemorragia apontada menciona alcançar R$ 384 bilhões a soma dos incentivos e isenções fiscais concedidos, estimados 26% do PIB. Boa dica para saber quais são os beneficiários vem da comparação entre a desoneração sobre a cesta básica (R$32,30 bilhões) e os favores financeiros e creditícios concedidos: R$ 40 bilhões.

E ainda se ouve uma retórica que não pode ser mais que um equívoco, para não lhe atribuir outro adjetivo. Estão todos otimistas. É isso o que se lê nos jornais.

Convenhamos, à falta de qualquer cultura, é melhor mantermos monocultura como a que o saudoso mestre Samuel denunciava. Ou não?


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