Barro comum

A leitura dos jornais diários e de outros periódicos e a audiência aos programas de rádio e televisão colocam-nos diante de uma realidade a um só tempo instigante e nauseante. Há momentos em que se imagina estar enredados na teia de insuportável pesadelo. A comemoração dos feitos da tecnologia, o exagero desmesurado desses festejos consagra outros deuses e os coloca em outros púlpitos e templos, a subordinar todos os pensamentos e gestos humanos. Mesmo se é frequente a ameaça de cada vez mais tornar-se tudo o inverso do que chamamos humanidade. Nas ruas, sob o pretexto de reivindicar seja lá o que for, misturam-se pessoas de bem e pessoas com bens; crianças, jovens e velhos; gente honesta, proba, austera e ladravazes, corruptos e exploradores do sangue e das esperanças coletivas. Qual hienas atentas aos outros animais que se prestam a presas, depois sabe-se estarem tais exemplares da anti-humanidade ali apenas à espera de pôr sobre os outros as patas predadoras. Para depois abandonar a cena, sob o riso cínico e perverso, enquanto agonizam os corpos inertes das vítimas - e suas esperanças.

É assim que vejo o cenário político brasileiro, e cada dia mais fortalecida tão surreal imagem.

Tanto fizemos para que um dia este país desfrutasse de um clima democrático e fruísse os bons resultados que somente a liberdade assegura, que nos recusamos a admitir ter chegado ao ponto em que hoje nos encontramos. À sombra da liberdade conquistada, ao invés de prosseguirmos a caminhada em direção à igualdade e à fraternidade que pensávamos conquistar, o que vemos? O proveito que a própria democracia oferece aos que buscam destruí-la. A tolerância levada a níveis inimagináveis, concorrendo para reforçar e aprofundar práticas que muitos pretextam combater. A agressão a preceitos constitucionais indispensáveis ao mínimo de convivência civilizada entre seres humanos. Pretensos vestais e catões, à semelhança dos gatos-ladrões deixam de fora os rabos que acabarão por ser descobertos. Instala-se, então, a porfia entre diversas categorias de delinquentes, nada mais. Nem menos.

Mesmo quando a liberdade a a democracia despertam ódio e fúria, os que mais se esforçam por revogá-las em nada são diferentes dos outros. E tudo revela a triste verdade, talvez a púnica, talvez a mais triste: o barro de que todos são feitos é o mesmo. Mesmas são suas motivações.



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