Baleias e tubarões

Convenhamos: não é tão fácil a disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados. Menos pelas peculiaridades e exigências do cargo, que pela complexidade que cerca a escolha. Nem conta dentre as inúmeras dificuldades a qualidade dos que um dia ocuparam a mesma cadeira. Se lá vimos sentado Ulysses Guimarães, também lá se acomodaram Severino Silva.e Eduardo Cunha. A partir deste último, ruiu qualquer razão para esperar a elevação política e moral da casa legislativa um dia denominada Câmara Baixa. Neste caso, cada vez mais baixa. Frustrada a tentativa do atual Presidente em manter-se no posto, saiu das coxias escuras e malcheirosas do palco o grupo cuja atuação, sempre sorrateira, tinha de tudo, menos de interesse pela causa pública. A tal ponto desgastado o coletivo, que mesmo o General Augusto Heleno escolheu para afirmar (não riam, por favor!) a incompatibilidade entre o governo que com agrado integra e os integrantes que ele disse correriam, caso algum incauto gritasse pega ladrão! Também é preciso convir que a reiterada declaração de amor à democracia e de combate à corrupção não impede a bom número desses parlamentares o apoio aos que não fazem outra coisa que os convocar para empreitada nada afeita aos dois propósitos. Isso, todavia, não pode impedir a análise responsável dos que votam para a constituição da Mesa Diretora da Câmara, mais baixa ela seja. Mais uma vez, o MDB tem papel influente na disputa. Tanto, que é seu próprio Presidente nacional o candidato a suceder Rodrigo Maia. Este, como se sabe, tinha a incomoda-lo não os colegas de partidos diferentes, mas problemas de consciência. Em tudo e por tudo crente nas mesmas verdades proclamadas pelo Presidente da República, contribuiu o que pode para evitar-lhe constrangimentos gerados pelo comportamento dessa autoridade. O desmonte do aparelho administrativo público, a. entrega da riqueza nacional ao controle privado e estrangeiro, a submissão dos interesses do País à determinação de outras nações contaram com o apoio permanente do filho de César Maia. Não bastou, para mantê-lo na cadeira e na linha sucessória. Cabe, agora, talvez até a ele mesmo, ajudar a atrair o Partido dos Trabalhadores. Há quem veja na adesão do PT ao deputado Baleia o aumento das probabilidades de o governo perder a disputa. Ninguém minimamente informado considerará a atual disputa pela Presidência da Câmara e o apoio a qualquer dos candidatos algo absolutamente meritório. Há que considerar, porém, tratar-se de oportunidade para estancar os arroubos autoritários de um governo que, além de anti-democrático, não cansa de expor sua fragilidade. Coisa que, também se sabe de muito antes das eleições, transpareceu a todo momento durante a campanha eleitoral. A decisão do Partido dos Trabalhadores, em que pese o resultado apertado, revela pelo menos renúncia à posição exclusivista longamente experimentada. Desta vez, o PT optou por formar na frente que tentará arrefecer o ímpeto autoritário do Presidente e o controle aberto do Executivo sobre os demais poderes. Pela cabeça de muitos petistas há de passar a hipótese de exigir de Baleia Rossi, caso eleito, a inclusão na pauta da Câmara de um das dezenas de pedidos de impeachment do Presidente, que Rodrigo Mais usou como espada pouco afiada de Dâmocles. As bases do partido reivindicam isso, como preço do apoio. O PT, que construiu fama e expandiu seu cercado à custa de combater os tubarões, agora pode lançar seus arpões na direção de Baleia Rossi. A hipótese contrária, porém, não pode ser desprezada: o Erário sofrer mais uma sangria, para não deixar que o adversário nade de braçada na eleição.

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