Baixaria

Quando o ódio se estabelece, não se esperem manifestações minimamente dignificantes. Sem a divergência, seria despropositado falar em democracia. Esta, como se sabe, alimenta-se exatamente da diferença entre visões de mundo. Uns acreditando na possibilidade de os homens serem capazes de mostrar-se animais inteligentes, cuja sociedade pode ser construída em correspondência com esse conceito. Outros, ao contrário, porque não se sentem diferentes dos animais ditos irracionais, fazem da violência, da intolerância e do autoritarismo as bases de sua conduta. Nem por isso, a democracia é inviável. Desde que, é óbvio, um lado e outro decidam manter o clima propicio ao encontro de ideias e propostas sustentadas por argumentos, não por armas e gritos ensandecidos. Muito menos, pela mentira. Toda vez em que os países se envolvem em conflitos, diz-se que a primeira vítima é a verdade. Nessas oportunidades, emergem do fundo dos indivíduos sentimentos remanescentes dos primórdios, aquilo apelidado de instintos selvagens. Porque, homens e irracionais são dotados, todos, de instintos que lhes são comuns: o da sobrevivência e o da reprodução, os mais marcantes. No ambiente natural, de que a selva se faz cenário, é compreensível a relação predador-presa. Sem o encontro de um com a outra não se estabeleceria a chamada cadeia alimentar. A preservação do ambiente natural, assim, depende sobretudo dessa função, absolutamente despropositada na sociedade humana. Há, sabe-se, os que defendem e buscam a guerra, seja qual for o motivo ou pretexto apresentado. Imagine-se o que seria dos produtores de artefatos bélicos, se faltassem usuários de seus lamentáveis produtos! Não é gratuita a afirmação do ex-general norte-americano Eisenhower, quando identificou em sua nação o complexo industrial-militar. O ex-Presidente que lutou na II Grande Guerra já morreu, mas não levou consigo o esquema que construiu o complexo por ele denunciado. Nem eliminou das mentes de seus compatriotas a simpatia pelas ações bélicas promovidas pelo complexo identificado. Nem ficou o resto do mundo cego aos maus exemplos que dali decorrem. Toda divergência suscita os piores sentimentos de muitas pessoas, levando-as ao mais baixo grau de desumanização. Chega-se até a buscar na intimidade do adversário o móvel de intensa divulgação, pondo no conhecimento público o que deveria ser mantido com certa discrição. No mínimo, por nada significar para a elucidação de fatos - esses sim! - criminosos que envolvem o interesse público. É o que acontece agora, envolvendo a família do Presidente da República. Os que se valem das dificuldades familiares de Jair Bolsonaro e usam as informações que dizem deter para contraria-lo acabam autorizando que o mesmo seja feito com eles. Quem ganha com isso, se não os destituídos de valores e ideias com as quais concordamos e defendemos com argumentos?

Uma coisa é investigar atos que se diz atentatórios às leis e à Constituição. Outra é bisbilhotar a vida familiar de qualquer cidadão, envolvendo-a na disputa política. Que os primeiros desses atos sejam rigorosa e firmemente investigados e punidos os que se revelarem culpados. Que os outros atos sejam deixados aos fofoqueiros. Sua utilidade para os cidadãos é nenhuma.

1 visualização

Posts recentes

Ver tudo

As eleições e as análises

Aos poucos, vão aparecendo nos media análises menos inconsistentes em torno do resultado eleitoral. Ainda que persistam certos equívocos (talvez não apenas só isso), a percepção dos observadores se va

Secula seculorum

Secula seculorum Até que enfim, encontro dois textos esclarecedores, em relação à eleição municipal deste ano. A jornalista Tereza Cruvinel e o professor Aldo Fornazieri são os autores, para cujo conh

Revolução à francesa

Ruas próximas á praça da Bastilha, em Paris, transformaram-se em campo de batalha na tarde do último sábado. A manifestação popular tentava impedir a imposição de lei de proteção das forças policiais

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.