Bíblicos

Num certo sentido, vivemos tempos bíblicos. Não porque a fé nas mensagens encontradas no Velho e no Novo Testamentos venham merecendo mais que a citação e o uso indevido, não raro criminoso. Assim, a boca que as pronuncia é a mesma que dissemina mentiras; a cabeça em que elas aparentam instalar-se urdem falsidades e tentam fazê-las ganhar o verniz da veracidade; as intenções pretextadas semelhantes perdem-se nos desvios impostos por algum tipo de doença mental ou tara. Os fatos correntes permitem estabelecer comparações, nelas encontrando correspondência. Os cúmplices do novo coronavírus apresentam-se como denodados combatentes do mal por ele produzido. O resultado é uma experiência que mescla fatores biológicos e humanos, desenhando o quadro apocalíptico anunciado pelo evangelista João. Desde que Lúcifer foi expulso do Paraíso, e destituído de sua aura angelical, coube-lhe preparar na Terra as condições para o término dos tempos. É aqui, neste planeta posto a girar em torno do sol, que se travará, nos termos bíblicos, a guerra entre o Bem e o Mal. Muitos se têm esforçado por mostrar que vivemos em permanente guerra. Pior, conseguem convencer alguns de que é isso mesmo. Inspiram-se, certamente, nos relatos bíblicos. No caminho, a experiência com as pragas, a primeira das quais tendo o rio Nilo como cenário. Lá, as águas se teriam transformado em sangue. Estava dado o primeiro passo para Moisés ser libertado com seu povo do jugo do faraó. Ao irmão de Moisés, Arão, coube, a mão estendida, espalhar rãs por todo o território egípcio. Mosquitos e moscas desabaram depois sobre aquela parte do continente africano. Os animais foram as vítimas da quinta praga, segundo o relato bíblico. Moisés infectou-os, causando enormes perdas à população. E não eram denários que eles perdiam. Do céu, por cinzas espalhadas sob a ordem do líder, espargidas pelas mãos dele mesmo, Moisés e de seu irmão Arão, resultaram úlceras a atingir gente e bicho. Isso não bastou, diante das negaças do faraó. A cada praga correspondia a promessa de libertar o povo judeu. A cada alívio, a confirmação do cativeiro. Depois, choveu pedra, poupados apenas os ocupantes do território onde vivia o povo que aspirava à liberdade. Com os gafanhotos distribuídos pelo vento não aconteceu diferente. O remédio não funcionou, e foi preciso impor as trevas ao Egito. Ainda assim, o povo escolhido não pode ir à terra da promissão. Foi preciso que o morticínio dos primogênitos ocorresse, para ser permitida a migração de Moisés e sua gente. Veja-se nas tentativas de transformação de alguém em faraó; nas pragas os antecedentes da covid-19 e das cepas sucessivas. Diferentes, talvez, apenas os números. Duvido que lá morreram tantos quantos os quase 640 mil com que a promessa foi cumprida no sepultamento em cemitérios brasileiros.

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