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Até onde vai a prepotência do império do Norte?


Marcelo Seráfico e José Alcimar*

 

Nem o livro europeu, nem o livro ianque davam a chave do enigma hispano-americano. Provou-se o ódio, e os países vinham rebaixando-se a cada ano (José Martí, 1853-1895)

 

 

 

               O Imperador do Norte, que se arroga Imperador do Mundo, no desespero de beneficiar os bilionários e animar os chauvinistas dos EUA, segue atacando em várias frentes, recorrendo às ameaças e à guerra como estratégia de afrontar o que está fora de suas fronteiras e fazendo derreter alianças políticas que até então pareciam sólidas. A questão europeia, embora delicada, é um bom exemplo desse derretimento político, haja vista que a região está sitiada por bases militares norte-americanas em todos os seus quadrantes geopolíticos. A velha Europa seguirá presa e submissa à coleira da OTAN e nas mãos do Imperador do Norte? Se não, a pergunta incontornável é: como os governos europeus lidarão com isso? 

 

               O fracasso da guerra por procuração na Ucrânia é o fracasso da OTAN. A ONU há muito está desmoralizada. A OMC, idem. Trump, em um ano, desfez a frágil, mas duradoura "Pax Americana". Uma paz, diga-se, feita de todo tipo de guerra. Como nada do que é humano (e político) é imune às contradições, há, no século XXI, um calcanhar de Aquiles na longa história de supremacia do Império do Norte: mesmo a manter-se como único Estado com poderio bélico em escala global, é inegável sua fase de decadência, e a partir de corrosões internas. Cedo ou tarde, a precedência ontológica do real sobre o ideal fará desmoronar a mitificação ideológica e mediática do propalado destino manifesto.  

 

               É certo que mesmo ferida, a fera ainda pode e deverá causar muito estrago, pelo menos no curto prazo. Quem poderia imaginar a Europa convertida em paiol dos EUA?  Mas a justificativa para isso acabou em 1991. Trump, corretamente, denuncia isso e reorienta o poderio militar norteamericano para objetivos exclusivamente norte-americanos. A Rússia só é uma "ameaça" porque foi agredida. O Irã pode se tornar uma ameaça se for ainda mais agredido. A China, diante de toda essa desestabilização política, expande suas parcerias econômicas na América do Sul, na África, na Oceania, na própria Europa e mesmo na América do Norte, com o Canadá. Pela arte e paciência do comércio o Império do Meio já domina bem mais do que o meio do mundo.

 

               O governo dos EUA está se isolando e imagina poder travar uma guerra fora de seu território. Porém, lá, no âmago do poderio e da arrogância, está em curso uma guerra civil aberta. O Estado está punindo parte substantiva da sociedade nacional. Como pode permanecer de pé um Império que perdeu coesão interna, sobretudo em razão do crescimento da mais degradada desigualdade social?   O roteiro de Trump é de autodestruição. O problema é que antes de isso ocorrer, haverá muita destruição pelo mundo. Deveríamos dizer, a destruição patrocinada e realizada no mundo todo pelos EUA seguirá. Os países que objetam as investidas de Trump precisam unirse politicamente, equacionar a questão militar e isolar ainda mais os EUA.

 

               Nenhuma saída de ordem geopolítica e de alcance global poderá ser vislumbrada se não for capitaneada por Rússia e China, os únicos países com poderio militar e projeto de sociedade autônomos. A Rússia conseguiu o que parecia impossível: escapar da tragédia neoliberal. A China simplesmente não participou desse projeto macabro. Enquanto todos os países do mundo, inclusive os EUA, naufragavam nas águas da financeirização, a China construía seu caminho. A Rússia, com Putin, reverteu uma trajetória que parecia incontornável. Refez-se de dois golpes articulados pelas mãos pesadas (e sujas) do neoliberalismo: do esfacelamento da antiga União Soviética nos anos 1990 e do isolacionismo econômico e punitivo que o Império e seus satélites impuseram em razão da assim chamada pela Rússia “Operação Militar Especial na Ucrânia”.

    

               Ou olhamos para esses dois países com a seriedade que merecem, ou ficaremos repetindo as baboseiras difundidas pelos sócios mediáticos nacionais dos EUA: Rússia e China são ditaduras sanguinárias e tome blá, blá, blá, blá,  blá,  blá, blá, sete vezes. Rússia e  China e demais BRICs – e a cada dia isso é mais patente – não cabem no quintal estadunidense. Hoje está em causa a própria ideia de liberdade, em escala global.

O lema fundador da modernidade capitalista não cabe mais, nem como ideal, na sociedade capitalista. Falar em igualdade, liberdade e fraternidade no mundo parido pelo neoliberalismo, pela financeirização da economia e pela globalização dominada por monopólios não passa de cinismo.

 

               O capitalismo nazifascista do Eixo foi vencido pela aliança entre países capitalistas liberais e socialistas reais. O capitalismo nazifascista dos EUA e de Israel só poderá ser vencido por uma aliança que seja capaz de derrotar o Império em decadência no campo militar e político, através da concepção de um novo projeto de sociedade global. O bem-estar social e o populismo nasceram do fracasso do capitalismo liberal. O que virá depois do capitalismo neoliberal? Se a perversão de Trump e dos seus não for contida, não virá nada, pois a tendência é o fim da humanidade como a conhecemos. Mas se eles forem detidos, essa será a pergunta a responder. E a resposta deve prescindir do modelo suicidário de democracia que o Império do Norte e seus satélites difundiram pelos quatro cantos do Globo.

 

*Marcelo Seráfico e José Alcimar são professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas

 

 

 

 
 
 

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