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No canto escuro da casa um homem chora, uma mulher chora. Um lamento se projeta para além da porta de saída; só o lamento.

Já não é possível sair. Lá fora um inimigo à espreita, invisível, ávido por uma célula para se hospedar.

O mundo do homem e da mulher já não é azul e o cinza dá o tom fúnebre do seu enclausuramento.

Quisera o homem e a mulher olharem seu mundo como se olha aquela sala cinza. O mundo que agoniza não é visto, apenas sofre com a insurgência destruidora do vírus homem, do vírus mulher.

O planeta azul está ficando cinza, como o canto escuro onde se passa o medo do que há lá fora. O inimigo é visível, está aí, e não chora nem lamenta; só destrói, como o vírus que sufoca a respiração.

A poluição, o monóxido de carbono, os gases letais corroem pulmões todos os dias, numa ação virulenta dos que se hospedam no planeta que vira cinza.

O inimigo está na sala escura, acuado pelo medo da morte que o espreita, como se a morte não o espreitasse todos os dias. Um vírus com medo do vírus. Um singelo sorriso sai no canto da minha boca.

Lanço meu clamor por quem chora e meu lamento por quem sofre: um homem, uma mulher, um planeta.

A agonia vive lá fora.

Na parte externa do meu mundo a destruição toma conta dos meus dias. Um cheiro de enxofre é sentido, mas não é o inferno, é apenas a chaminé da fábrica onde homens e mulheres viram fumaça.

O ar é quente e o fogo consome a floresta para o gado pastar e a soja plantar.

Homens e mulheres viram capital e o planeta continua a morrer sufocado pela ignorância de muitos e pela ganância de poucos.

Um vírus está a nos matar.

No Morumbi, uma champanhe Dom Perignon é tomada em taças de fino cristal.

Em São Conrado, um vinho romaneé-conti é consumido com caviar do Irã.

Na ponta negra, cédulas do dinheiro público ornamentam as varandas gourmets.

Nas favelas, morros e bairros operários a vida segue com o vírus da fome e da desigualdade a consumir homens e mulheres.

Do lado de fora, destruindo vidas e o planeta a indiferença dos que se regozijam com a miséria social.

Em poucos meses tudo voltará ao normal e o mundo continuará convivendo com a devastação da floresta amazônica, com a poluição dos rios, com 700 milhões de famintos, com crianças morrendo de desnutrição, com idosos jogados nas ruas, com o roubo dos pastores evangélicos, com a hipocrisia de cristãos sem Cristo.

O mundo não mudará. O mundo que está aí continuará cinza. Não há esperança para o desencanto. Não há vida na exploração do homem pelo homem. O capitalismo destruidor continuará matando, destruindo, e homens e mulheres, mergulhados nas suas próprias maldades persistirão no seu caminho rumo ao abismo.

Lúcio Carril

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