Assim é, se lhe parece

A semelhança entre pessoas, aquela condição que se costuma chamar de sósia, nem sempre agrada. Muitas vezes, por simples recusa em ver-se descaracterizado de sua própria identidade, mesmo sem conhecer o que lhe parece espelho.

Comigo tem ocorrido de ser tido por escritor festejado, nem por isso invejado. Por mais de uma vez fui tomado por Içami Tiba, um nipo-brasileiro que escrevia livros de auto-ajuda.

1. A primeira vez, estávamos Graça, minha mulher; meu irmão João e a mulher dele, Nazaré, e eu em livraria da Estação das Docas, em Belém. Era noite e tempo do Círio, e como sempre ocorre havia muitos visitantes percorrendo os espaçosos galpões dali. Em frente à livraria, reuniram-se várias senhoras, integrantes do que se convencionou chamar terceira idade.

Enquanto passávamos a vista nos mostruários de livros, sentíamos a convergência dos olhares do grupo de mulheres que estava fora do pequeno estabelecimento para nosso próprio grupo. Até que uma, enchendo-se de coragem, dirigiu-se a mim: “O senhor não é o Içami Tiba? “. Não, foi a seca resposta ouvida.

Mal sabia eu que ali se inauguraria uma situação que tenho enfrentado freqüentemente. Sem restrição a lugar, cidade ou país, como adiante constataremos. A repetição do equívoco acabou vencendo minha irritação inicial. Se me mantivesse irritado, pior seria para mim, tantas as vezes em que o fato ocorreu.

2. Outra vez, senti-me incomodado com verdadeiro cerco de um casal, enquanto com a Graça esperava a hora de embarcar, no aeroporto Eduardo Gomes. Iríamos a Porto Alegre, comemorar o aniversário de Nicole, a neta que morava com os pais, na capital gaúcha.

Sentados à mesa de um café na sala de embarque, percebemos a ronda que um casal bem vestido descrevia em torno de nós. Depois de muitas voltas, disse à minha mulher que estávamos sendo confundidos com alguém. Resolvemos deixar por menos, quando fomos chamados para o embarque.

No aeroporto de São Paulo, hora da conexão, de novo percebemos o casal a nos cercar. Procuramos ficar no lugar mais discreto possível, na esperança de despistar os curiosos.

Até que o marido, mal escondendo a ansiedade, dirigiu-me a palavra: “O senhor não é aquele escritor famoso?”. – Escrevo, mas não me considero escritor, nem sou famoso. De volta, recebi: “O senhor não é o Içami Tiba?”. – “Não, o senhor está enganado”. Foi tudo quanto eu disse, antes de ter a certeza de que o casal a partir daí começou a considerar o escritor paulista um grosso, pedante e antipático. Pior para ele, Içami...que levou para o túmulo essa inimizade gratuita.

3. Outra vez, em lanchonete de Manaus, ocorreu de participar de conversa com dois nisseis, quando ao local chegaram algumas famílias. Sentando em mesa ao lado da nossa, um casal e filha de cerca de dez anos de idade.

Interrompendo nossa conversa, a menina perguntou-me se eu poderia sentar à mesa de sua família, pois os pais eram meus leitores e me admiravam. Prometi-lhe ir, tão logo nossa conversa se encerrasse. Que esperassem, se pudessem... Imaginei-os leitores de A Critica, onde publico artigo semanal.

Terminada nossa reunião, quando só um dos meus companheiros – Tetsuo Tsuji, colega na EBAP/FGV, 1967, – restava, porque eu iria deixá-lo no hotel, tratei de atender ao pedido da criança. Quando me aproximei da mesa em que o casal esperava, logo outro casal acercou-se de mim e do Tetsuo e, de câmera fotográfica em punho, pediu-me para posar ao lado dos outros. A ficha caiu e me fez perguntar: “Vocês sabem quem eu sou?” A resposta, previsível, veio pronta: “Ora, o Içami Tiba”. Quase fugindo, sai apressado, depois de dizer, algo constrangido: “Vocês estão absolutamente enganados. Desculpem-me, mas tenho que ir embora”.

Suspeito que, mais uma vez, a simpatia do escritor ficou comprometida.

4. No Fórum Social Mundial, em Belém, em meio a celebridades, era plausível a presença de intelectual tão renomado. Por isso, dar de cara com ele propiciaria a oportunidade, no mínimo, de roubar-lhe um cumprimento efusivo. Como o que recebi de uma senhora, que pressurosa se aproximou de mim, desfazendo-se toda em admiração: “Oh, professor Içami Tiba, é um prazer cumprimentá-lo”. Minha resposta, seca como de costume em tais situações: “Engana-se. Eu não sou Içami Tiba”. E tratei de sair das proximidades com a rapidez possível. Talvez ali o Içami Tiba tenha ganho mais alguns inimigos.

5. Na manhã de 25 de março de 2009, aconteceu-me de novo a confusão. Aproximei-me do balcão em que a atendente da clínica preenchia minha ficha, ao ser chamado por ela: “Senhor José da Silva pode vir assinar”. Barriga encostando no balcão, ouvi de outro paciente que solicitava a mesma atenção da atendente: ”Ora, eu já ia pedir-lhe um autógrafo, pensando que o senhor era o Içami Tiba”. Desta vez, apenas sorri.

6. Estava entretido no caixa do supermercado, enquanto Graça ajudava seu pai a caminhar em direção à porta de saída. Deparei-me com uma pessoa, mulher de meia idade, sorridente, aparentando o desejo de falar comigo. Cumprimentei-a, voltando a completar o pagamento. Ainda tive tempo de ver Graça trocando palavras com a simpática desconhecida. Já fora do supermercado, vim a entender o olhar sorridente e a troca de palavras da minha mulher com a desconhecida: esta apenas conferia se eu era o Içami Tiba. Decepcionou-se, como sempre tem ocorrido... (outubro de 2010).

7. Estávamos no restaurante de Natal, Graça, minha irmã Lúcia, Larissa filha dela e eu. O Atlântico se abria diante de nós, sem que pudéssemos ver a beleza e o movimento de suas águas, na simpática capital do Rio Grande do Norte. A recomendação do taxista funcionou mais como uma sutil imposição. Quase sem dar tempo à nossa manifestação, o profissional estancou o carro e, informando que o trajeto de volta seria gratuito, praticamente entregou-nos ao funcionário da casa de pasto, que se aproximava para abrir as portas do veículo. Lá dentro, música agradável de que se encarregavam um violonista e a cantora, parecia mostrar-nos o acerto da indicação do condutor do táxi. Barraca do Caranguejo ficaria para próxima visita à quase sempre ensolarada (não era o caso, naqueles dias de julho de 2010) Natal.

Sentados a poucos metros do pequeníssimo palco em que se acomodavam o músico e sua acompanhante na arte, animamo-nos a sugerir algum número de nosso agrado. Lúcia pediu primeiro: Andanças. O músico, com acabrunhamento impossível de esconder, desculpou-se. Não podia executar a música. Se lhe faltava a partitura ou se a peça não constava do seu repertório, está-se por saber.

Era aparente a simpatia que os animadores do ambiente demonstravam pelo grupo familiar em visita à cidade. Tanto que nos solicitaram nova sugestão. E a atenderam, executando obra de autoria de Chico Buarque de Holanda.

Satisfeitos nosso apetite musical e nossa pouco exigente gastronomia, encaminhávamos-nos para a porta de saída. O garçom, solícito, aproximou-se para o que pensávamos ser a gratidão pela gorjeta. Qual o que? - diria Chico. Ele apenas queria confirmada a suspeita de que aquele grande escritor, Içami Tiba, tinha sido seu mais recente cliente. Fez mais: informou que o violonista também achava isso.

Aí, então, descobrimos tanta solicitude e tanto acatamento de nossa sugestão musical.

8. Estávamos na sala de embarque do aeroporto de Natal. Da Graça, aproximou-se uma passageira, como nós aguardando a chamada para o voo. Talvez para explicar a insistência com que me acompanhava com os olhos, dirigiu-se à minha mulher: este senhor é o Içami Tiba? Não, não era. Mas se consumava mais um evento, no processo de crise de identidade, vivido por mim, desde que o escritor paulista se tornou famoso. Era, então, 27 de julho de 2010.

9. Círio de Nazaré, 2010. De nada adiantou o uso da boina. A cobertura da superfície calva não conseguiu desfazer o reiterado equívoco. Mais uma vez, Nazaré, João e Graça testemunharam a confusão. Onde estávamos, já não me lembro.

10. Saía da igreja de N.S. de Nazaré, em Manaus, depois de participar de missa de sétimo dia do falecimento da irmã de um amigo. Encontrava-me no adro do templo, encaminhando-me para o batente que me poria na rua, propriamente. Estava distraído, quando uma jovem que aparentava menos que vinte anos pôs os olhos, repentinamente iluminados e revelando surpresa, sobre mim. Em seguida, deu dois passos em minha direção, para interpelar-me: Professor Içami Tiba?! Era uma indagação ou revelação de enorme surpresa?

No momento, nada me passou pela cabeça, nem a forma pela qual eu desfaria o equívoco. Ainda bem que, logo atrás de mim, vinha um casal; ambos ex-alunos meus. Mais que rapidamente, a mulher (Orione) tomou-me a frente e esclareceu tudo, não sem certa generosidade (pois para isso temos ex-alunos): Não, este é o famoso professor Seráfico. Só então encontrei jeito de dizer: Não é a primeira vez que esse engano acontece. Fique tranquila, moça. Só que, a esta altura, decepcionada e algo envergonhada, a jovem já havia se posto de costas. A tanto a levou o equívoco, que sequer me incomoda mais. (30.05.2011)

11. Era 29 de outubro de 2011. O lugar: VI Feira Internacional da Amazônia. Despertava nossa curiosidade o pequeno sachê com folhas de noni, fruta só recentemente conhecida por nós. Graça já ouvira muito falar de suas propriedades benéficas à saúde, dos idosos principalmente.

A pessoa mais próxima da vitrine em que os sachezinhos eram expostos foi a primeira procurada. Um pouco gordo, careca como eu, bigode louro, camiseta ostentando inscrição que o identificava com a organização do estande, aquele homem de cerca de 50 anos fitou-me sem pudor. Ao ser indagado onde poderíamos encontrar e comprar o sachê, não titubeou: puxa, ele (neste caso, eu) parece com aquele senhor do cogumelo do sol!

O sorriso de minha mulher e minha expressão atônita deixaram o perplexo interlocutor algo constrangido. Antes que lhe abrisse no rosto um sorriso. Naquele momento, compreendi que meu problema de identidade se desloca de uma só nação para todo o Oriente, que não está tão próximo.Quem sabe devo andar com um crachá sempre posto no peito!? Aí, ficarei permanentemente escrachado...

12. A mulher acenava de fora do carro, sem que Graça e eu pudéssemos entender o significado dos seus gestos. Finalmente, conseguimos perceber pelo menos um dos propósitos dela. Desejava entregar-nos (ou vender-nos?) algo que imaginamos ser uma camiseta do Grupo de Apoio à Criança com Câncer. Era a conclusão a que chegávamos, após identificadas outras dessas camisetas, sobre uma mesa instalada debaixo de um toldo plástico, cercada de outras pessoas, senhoras inclusive.

Com a camiseta e alguns folhetos na mão, nossa agitada interlocutora olhou com indisfarçável curiosidade e euforia, ao aproximar-se do carro. Esquecida do propósito inicial, que a havia levado a convocar-nos com gesticulação ansiosa, ela deixou fluir de suas cordas vocais, quase aos gritos: eu pensei que era o professor Içami Tiba! Eu gosto tanto do que ele escreve! Mais não disse, nem lhe foi perguntado. Com o que, acompanhados dos netos Lucas e Matheus, Graça e eu não conseguimos conter o riso. Mais uma vez, eu era confundido com o autor de Quem ama não mata. Já era noite, nesse dia 03 de novembro de 2011.

13. O secretário de Cultura esforçava-se por mostrar-me os programas e projetos em que se empenha sua pasta. Estávamos no ambiente em que se realizava a Bienal do Livro Amazonas, no início da noite de 04 de maio de 2012, uma sexta-feira, chuvosa como vinham sendo os dias daquela semana.

Diante de nós desfilavam pessoas de todas as idades, umas interessadas apenas em participar de alguma das muitas atividades que ali tinham lugar. Outras, em busca de livros para adquirir. Muitas, atraídas pela mais prosaica curiosidade, desejavam mesmo conhecer de perto autores de que eram leitores ou apenas dos quais haviam ouvido falar. Nada diferente do que ocorre em qualquer acontecimento envolvendo livros, artes, funerais ou festividades.

Pedindo ao secretário que lhe concedesse um autógrafo, a jovem destacou-se de suas duas acompanhantes de idade muito próxima à dela. Depois, pôs-se entre mim e o autografado, pedindo a uma das suas acompanhantes que flagrasse com pequena câmera fotográfica aquele importante momento, pelo menos para ela. Nossa conversa continuou, ora seguindo o dedo indicativo do secretário, a me mostrar algum ponto destacado do seu programa; ora, fazendo-me acompanhá-lo até o local onde havia pequena coleção de livros, arrumados em bem-confeccionada caixa de madeira. Ali estava a sedução aos leitores potenciais que não têm como comprar livros.

Voltáramos ao ponto em que nosso diálogo começara. Repentinamente, um casal aproximou-se de mim, sorrindo e acenando alegremente. Reconheci no homem uma figura que já estivera sob o alcance dos meus olhos; só não saberia precisar quando, nem onde. O certo é que ambos se aproximaram e, fingindo ignorar a presença do meu interlocutor, o marido pediu que me deixasse fotografar ao lado de sua mulher. Justificou: ambos eram meus leitores e gostavam do que escrevo. Feita a pose para o marido-leitor cuidadoso e reverente, bastou o flash explodir, para eu ser notificado de que meus livros agradam tanto ao casal quanto às suas filhas. Só aí caiu a ficha. O fotografado não fui eu, mas meu sósia, Içami Tiba. Já era tarde. Nada mais podia fazer, nem acompanhar os passos largos do casal, ostentando um verdadeiro troféu, a foto de seu autor preferido.

Perdidos em meio à pequena multidão que se reunia no amplo galpão de exposições do Studio 5, deixaram-me a suspeita de que sua decepção cedo virá. O primeiro a quem a fotografia for mostrada, com aquele ar de vitória tão conhecido, desfará o equívoco. E serei tomado por impostor, porque jamais marido ou mulher se lembrarão de não me ter chamado pelo nome. Convocaram-me, simplesmente chamando professor. E é o que sou e sempre serei.

14. Finalmente, internacionalizou-se a confusão. Desta vez, a França de tão gratas imagens e tradições reservou-me a – quase digo, equivocado, surpresa – experiência.

Aconteceu de estarmos, Graça e eu, percorrendo lojas próximas ao hotel onde estávamos hospedados (Capucines Residence, Rua Favart, 83).

Feitas as compras no magazin Printemps, passamos à Galeria Lafayette, conhecida por nós. A recepção de uma vendedora falando bom português nos animou a explorar cada pedaço daquele templo do consumo. Logo, tínhamos utilizado mais de uma vez o cartão de débito e se acumulavam as notas fiscais de cada compra. Era preciso reivindicar a restituição do IVA. Antes, informar-nos como seria possível buscar parte do que gastáramos. Pergunta aqui, pergunta acolá, fomos encaminhados ao segundo piso da loja.

As primeiras tentativas de chegar ao ponto que presumimos o indicado, em nada resultaram. Deixei Graça esperando em local de pouco movimento, no andar inferior, enquanto tratei de subir a escada que um dos seguranças me havia indicado. No topo, procurei a placa que identificaria o local da restituição do tributo. Em vão. Nada vi. Voltei, encontrando outro empregado, ao qual logo me dirigi, esclarecendo minha dificuldade. Desta vez, com a mesma solicitude do primeiro, obtive dele informação que me devolveu ao segundo andar. Segui rigorosamente sua orientação e dei de cara com a placa informativa: Departamento de Orientais. A fila de gente de olhos puxados era enorme. Poderiam ser coreanos, chineses, vietnamitas, japoneses, tailandeses ou de outras nacionalidades. Não havia, porém, qualquer um que se assemelhasse a um brasileiro perplexo. Eu fora tomado, mais uma vez, como oriental. Fosse a fila menor, talvez eu assumisse a nacionalidade tantas vezes imputada. Mas não era o caso...Consumava-se a internacionalização do equívoco.

15. Percorríamos, Graça e eu, os estandes das livrarias. Visitávamos a XVII Feira Pan-Amazônica do Livro, instalada no Centro de Convenções Hangar, em Belém do Pará. Até aquele momento, tinha sido vão o esforço para encontrar o livro Dias de luta. Fomos informados da existência dessa obra, pela leitura da revista de bordo da Gol, de cujo voo 1938 (no trecho Manaus/Belém) participáramos. O exemplar seria nossa lembrança de viagem para o Marcelo.

Supúnhamos que, vocalista e guitarrista de uma banda de rock (Pacato Plutão, seu nome), ao nosso filho agradaria ler o trabalho. Afinal, contando a história do rock brasileiro nas décadas dos 1960 a 1980, o livro ofereceria informações interessantes ao sociólogo-músico.

Depois de um sem-número de estandes visitados, chegáramos à conclusão de que a obra não seria encontrada. Suspeitamos até de que não havíamos entendido a notícia divulgada na revista. Lá poderia estar apenas a informação de que a obra não demoraria a chegar ao mercado.

De qualquer maneira, tentamos uma última oportunidade. Apressei-me em abordar uma vendedora, dirigindo-me ao local em que estava instalada a caixa. Antes que a funcionária me respondesse, quem me dirigiu a palavra foi a sua colega: Puxa, como o senhor é parecido com o Yçami (que ela pronunciou Ixami) Tiba, aquele escritor!

Mostrando-se arrependida com a inocente indiscrição, a moça ouviu de mim, à moda de tranquilizá-la: Você não é a primeira pessoa que acha isso.

Só então a moça da caixa me informou que também ali não estava sendo vendido o livro procurado.

Saí sem o livro, mas acrescentei novo episódio a este texto.

16. Ainda repercutiam em mim as cenas da passeata do dia 20 de junho. Pelas ruas de Manaus, percorremos a pé extenso trecho – da avenida Eduardo Ribeiro até a rua em que se localizava o estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão. Éramos quatro – eu e meu filho Marcelo e um casal amigo, parte minúscula da multidão que se manifestava contra a corrupção, a exploração, a demagogia e o descaso das autoridades. Até aonde minha vista alcançou, não identifiquei outro caminhante com idade igual ou próxima à minha.

Era essa circunstância que eu pensava ter feito aproximar-se de mim pessoa que nunca havia visto, onde quer que seja.

Eu estava em um shopping (Manauara), saindo de uma e dirigindo-me a outra loja. Era percurso infinitamente menor que o que na véspera havia percorrido. Mas nem por isso destituído de surpresa, embora não a mesma que me assaltou, em meio à multidão.

Fazendo-me parar, o indivíduo perguntou: alguém já disse que o senhor parece com aquele pintor ... o Mabu Mabe? (foi assim que ele chamou o pintor). Pela demora em pronunciar o nome do meu sósia artista, logo pude entender a insegurança do inquiridor. Respondi com outra pergunta: Manabu Mabe? Sim, retrucou meu interlocutor.

Não se preocupe. Com ele jamais fui comparado. Mas com Içami Tiba, muitas vezes.

O desconhecido apenas assentiu com um gesto. Ele também talvez tenha confundido o pintor com o escritor. E eu com ambos...

17. Mal entramos no ônibus que nos levaria de Barcelona a Lisboa, o homem sentado no banco atrás do meu não resistiu: o senhor é o professor Içami Tiba? Lembrei-me, então, de que meu sósia havia morrido fazia poucos meses. A vontade que tive foi responder com uma pilhéria. Algo assim: é que às vezes eu costumo aparecer para certas pessoas curiosas.

A boa educação, todavia, fez-me elaborar resposta menos desagradável – para ele e, claro, para mim mesmo. Simplesmente, disse: o senhor não é a primeira pessoa que faz essa confusão. Nem será a última, estou certo.

Lá nos fomos, de Barcelona a Alicante, de Alicante a Córdoba, de Córdoba a Granada, de Granada a Sevilha, de Sevilha a Évora, afinal Lisboa, sem que a pergunta do outro turista fosse repetida, nem que o Içami tenha surgido das profundezas da morte para visitar-nos. O seu sósia e todos os curiosos que se ocupam de nós.

18. Saíamos de um supermercado, em Manaus. Enquanto empurrava o carrinho cheio de mercadorias, senti que uma pessoa se aproximava de mim, pelas costas. Eu poderia estar enganado, se pensasse que ele me assaltaria. Mesmo se apenas pensasse que ele desejava dar-me um bom dia. Ou dirigir-me somente uma saudação. Algo como um alô, como vai? Belo dia, esta sexta-feira, hein!? Enfim, palavras que às vezes as pessoas dizem umas às outras, como forma de mostrarem que os seres humanos precisam relacionar-se mais humanamente entre si.

Não! Se eu pensasse em qualquer dessas hipóteses eu estaria enganado. O que o homem pretendia dizer-me significava a repetição de experiência e audiência a que já me acostumei: já lhe disseram que o senhor parece muito com o professor Içami Tiba? Sim, respondi, logo acrescentando: o senhor não é o primeiro que destaca isso. Mas não se preocupe, outros ainda farão o mesmo. E saímos, eu e Graça, para arrumar as compras no porta-malas do carro.

19. Desta vez, o inusitado (nem tanto, como já se sabe) não foi terem-me confundido com o escritor paulista já falecido. Mas a simplicidade com que uma vendedora de loja em shopping center abandonou o pretenso comprador.

Estávamos, como sempre, Graça e eu, em busca de uma peça de roupa com que presentear algum jovem amigo. Entramos na Taco, de cujas camisetas e bermudas somos apreciadores. Anda daqui, anda de lá, conseguimos encontrar uma jovem vendedora, dessas que se percebe à primeira vista ser parte do contingente de temporários admitidos no período de festas natalinas.

Enquanto nos informava sobre as peças desejadas, a garota não tirava os olhos da porta de entrada do estabelecimento. Mal avistou as pessoas que – pode-se presumir – aguardava, dirigiu-se a outra vendedora, recomendando: colega, atende aqui esse japonês de olhos azuis, para mim. E saiu quase correndo em direção ao casal de jovens amigos que entrava na loja. Sem sequer se dar tempo de corrigir o erro quanto à cor dos meus olhos. Mas terá feito uma descoberta importante para a ciência: oriental com olhos azuis. Os que nem eu tenho...

Penso, agora, que todos já se deram conta da morte do meu símile.

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