As coisas e seus nomes.


Todas as coisas, todas as pessoas, todos os fenômenos têm nome. Para que nomear tudo quanto aparece diante de nós? De onde vem a necessidade de dar nome a coisas que nunca vimos e jamais veremos? Os dicionaristas talvez tenham boas respostas. A nós cabe apenas estranhar ou aprovar a escolha de quem deu o nome pelo qual se identifica a coisa, a pessoa, o fenômeno.

Não vejo, por exemplo, que melhor nome poderia ser dado à morte de um grande número de seres humanos, se não genocídio. Se alguém mata um homem, sabe-se ter havido um homicídio. Reconhecida a necessidade de proteger a mulher contra a violência e a covardia do homem, criou—se o termo feminicídio. Antes, o Direito Penal tipificou o uxoricídio – assassínio da mulher pelo próprio marido. Tanto como o filho matar o próprio pai corresponde ao parricídio.

Que outro nome deveria ser dado à morte de dezenas de milhares de seres humanos infectados pela covid-19, quando a pandemia teve a acolita-la a ação ou a omissão de outros seres humanos? Ou a morte das pessoas deve ser entendida dentro da moldura de absoluta inexorabilidade, impeditiva de qualquer gesto capaz de adiar o momento por enquanto fatal, e por isso natural? Sobretudo, pelos responsáveis por ações que lhes competem como líderes políticos e autoridades públicas.

Se não forem levadas em consideração a reiterada advertência e a incansável recomendação dos cientistas e pesquisadores, com base nos conhecimentos que a Ciência até hoje produziu, ainda assim seria forçoso reconhecer a ação hostil dos quadros dirigentes do País. Ir além do que todos os brasileiros sabem a respeito do desdém presidencial, sob o silêncio quando não o aplauso, de seu círculo mais próximo seria providência inócua, rebarbativa, recorrente. Estamos frente a um axioma, não um teorema. Os fatos ofuscam nossos olhos, as palavras ferem nossos ouvidos. O quanto basta!

Sob pena de aprofundar o envolvimento de nossas forças armadas no genocídio, o melhor a fazer é refletir sobre as péssimas consequências do fato na imagem tão desgastada do Brasil no exterior. Só isso, e certa renúncia à arrogância e ao messianismo, reporá as coisas nos seus lugares. Com o nome que as coisas têm.

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