Arte e barbárie


Talvez ninguém tenha dito, como Vinícius de Morais, das peculiaridades tão prosaicas do sábado. Ele disse quase tudo. Pena o poetinha já ser morto, quando a bailarina russa residente no Brasil há tanto tempo quanto tenho de vida, foi entrevistada por Pedro Bial. Tatiana Leskova, chegada no Brasil em 1942, e neste primeiro de maio posta diante da câmera, ostenta sadios 98 anos. Uma trajetória invejável, seja pela carreira artística, seja pela contribuição dada ao balé, o que não é pouco neste país em que o som da metralha parece embevecer grande parte da população. Se é que dentre os que cultuam a criação de Samuel Colt há a mínima probabilidade de embevecimento. Do papel desempenhado por Tatiana no balé clássico praticado no Brasil, deu testemunho a festejada bailarina Ana Botafogo, diante da câmera também. Da conversa com o entrevistador da rede Globo e as duas bailarinas senti realçada a função das artes, ainda quando a ignorância, o autoritarismo que costuma acompanha-lo e a barbárie tentam impor-se. Não tivessem presentes na Europa de onde Tatiana fugiu todos esses ingredientes tão destacados na atualidade brasileira. Adolph Hitler, involuntariamente, enriqueceu a arte brasileira. Como a estimular os artistas, tão bem representados por Thiago de Mello, cujo talento e compromisso mostram o vigor da arte, mais ainda como resposta à escuridão. O remate da entrevista repercutiu em mim, com o mesmo impacto que me causara a afirmação do biólogo Tetsuo Yamane. Ele disse: Ciência e Arte buscam o mesmo fim – o Belo. Leskova, referindo-se ao balé, disse que “da cintura para baixo, é matemática; da cintura para cima, é poema”. Os brutos e ignorantes ocupam outros palcos.

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