Apresentação*


A formação de economistas, no Brasil, tem várias fases. Como em outros ramos do conhecimento humano que ensejaram o aparecimento de profissionais especializados, a Economia também se nutriu, nos seus primeiros momentos, de autodidatas. Oriundos, em grande parte, das Faculdades das então Ciências Jurídicas e Sociais, mais tarde os economistas passaram a proceder dos cursos de Engenharia. Tal correspondência tinha a ver com o gradativo deslocamento daquele importante ramo do saber da área eminentemente social, para a área da produção. Uma coisa - o desenvolvimento do capitalismo - ligava-se ao deslocamento da fonte acadêmica de que procediam os profissionais da Economia.

Roberto Araújo de Oliveira Santos talvez seja um dos últimos exemplares que, provindo das Ciências Jurídicas e Sociais, destacaram-se como economistas, no caso dele dos mais competentes e prolíficos.

Compreende-se que assim tenha sido. Os cursos de Direito não se circunscreviam ao estudo apenas das leis, da doutrina e da jurisprudência, como insinua o próprio nome recebido nas faculdades que os ministravam. Abrangentes a tal ponto, incluíam dentre suas disciplinas o estudo da Economia Política. E não ficavam apenas nelas, de que nos pode testemunhar a inclusão da palavra Sociais.

Pois bem. Do curso de Ciências Políticas e Sociais, em tempo anterior ao da criação da Universidade Federal do Pará- UFPA, saiu o autor desta História da Economia Amazônica, cuja 2ª edição está sendo agora apresentada.

Aos que frequentavam as aulas em que juízes e desembargadores comunicavam suas prolongadas experiências no exercício da judicatura e os advogados e procuradores mostravam farto conhecimento sobre o processo judicial em suas diversas instâncias e fases, também era dado conhecer os fenômenos políticos, sociais e econômicos. Nesta última área, não apenas o enunciado de leis (como a do mercado) ou a formulação de equações e o desenho gráfico e os quadros estatísticos que costumam deslumbrar os mais jovens dos profissionais da Economia.

Não. O que se lhes mostrava (tudo num curso que formaria bacharéis) era o fenômeno social em tantas quantas fossem reconhecidas as dimensões humanas que nele se contêm. A essas lições sempre esteve atento o professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFPA, falecido em 2012.

O fato de se ter tornado competente advogado, juiz trabalhista e, depois, Presidente do Tribunal Regional do Trabalho - 8ª Região (Belém, PA), com diversas convocações para a mais alta instância dessa espécie judicial (o TST), não limitou Roberto Santos em seu desejo de saber. Muito menos o impediu de incursionar vitoriosamente no campo econômico, de que seu livro já considerado clássico dá ostensivo testemunho.

Cobrindo o período 1800-1920, a obra trata de período dos mais importantes - e também instigantes - da história econômica da Região, a que jamais faltaram a observação e a intervenção do autor. Com a vantagem de ter ele inserido dentre suas preocupações a que se refere à educação, como o demonstra o período em que respondeu pelos assuntos respectivos, na Comissão de Planejamento da Superintendência para o Plano de Valorização Econômica da Amazônia- SPVEA, de que era membro.

Não bastassem tanto empenho e decidida contribuição, a destacar a competência e a acuidade com que Roberto Santos se entregava à tarefa de conhecer a realidade amazônica e fazê-la conhecida de seus colegas profissionais e interessados alunos, a conquista do grau de Mestre, na Universidade de São Paulo, atribuiu-lhe título que não cabe apenas no papel. Doutor era o que a banca examinadora gostaria de chamá-lo, como registrado em oportuno e justo artigo publicado por um de seus mais próximos amigos. Reporto-me ao artigo que o professor Orlando Sampaio Silva, colega e amigo de Roberto desde os tempos de ginásio, depois seu compadre, inseriu na seção Tempo-Espaço e Memória, quando da subtração do nosso convívio daquele grande amazônida (www.carlosbranco.com.br, 02/08/2012).

Assim, ao lançar esta edição, a Editora Travessia/Valer faz mais que entregar aos estudiosos da Amazônia e do Brasil uma obra indispensável ao conhecimento da região. Além disso - o que já é louvável - não deixa cair no esquecimento a contribuição de um pesquisador criterioso e, sobretudo, compromissado com a terra em que nasceu e morreu. As gerações que ainda virão por certo saberão buscar nas páginas a seguir a inspiração para muitas de suas análises e de formulação de políticas que redundem na transformação da Amazônia naquilo que Roberto Araújo de Oliveira Santos e toda a sua geração um dia sonharam.

A primeira edição desta História Econômica da Amazônia (1800-1920) coube à A. Queiroz Ed., São Paulo, 1980.

Manaus, março de 2015.

José Seráfico


* IN História econômica da Amazônia, 2ª edição. Manaus, AM. Editora Valer, 2019. Pp.9-11.

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