Apenas simulacro


É fácil confundir a democracia com tudo aquilo que ela não é. Em tempo de exacerbada polarização, a confusão pode até ser saudada como bem-vinda. Se a polarização se assenta sobre o ódio e a discriminação dele resultante, o ambiente pior se torna. Isso me vem à mente, quando comparo o segundo turno da eleição deste ano, que todos – e aqui respeito a desrespeitosa opção dos discordantes – desejam empurrar ladeira abaixo. Regime característico das sociedades abertas, onde ao pensamento e à Ciência é reservado espaço, a democracia inexiste onde não há divergência. Menos ainda quando, havendo divergentes, eles são vítimas de restrições impostas não pelas regras de conduta de interesse coletivo ou pelas leis científicas, mas pela manifestação unívoca (e quase sempre equívoca) de algum capitão-do-mato. Vivemos num Estado e numa cidade em que a polarização é rompida da pior forma que se possa imaginar. Ou admitir. Disso dá prova a disputa para a Prefeitura da capital, cujos contendores representam contradição absolutamente alheia ao fenômeno político. Uma aparente contradição, não mais. A experiência revela disputa entre o seis e a meia dúzia. Ambos os pleiteantes trazem consigo os mesmos vícios, originários da mesma escola e fiéis a iguais propósitos. Se um foge dos debates e não consegue mais que pôr os olhos no passado, o outro nada apresenta que se possa com justiça considerar novidade. Também aqui, a diferença está na idade do passado, um mais recente que o outro. O que não basta para enxergar um palmo adiante do nariz. Este, sempre ameaçado de prolongar-se, como na imortal obra de Gepetto, criação do Italiano Carlo Collodi. Enquanto em algumas capitais é clara a diferença entre os candidatos, entre nós a disputa restringe-se à aparência e à idade dos postulantes. A maneira de ver o mundo, os objetivos perseguidos, as práticas e os métodos foram aprendidos e aperfeiçoados na mesma escola. Se chamarmos a isso democracia, seria prudente atribuirmos a essa forma o caráter de simulacro.

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