Antes tarde

Pode ser considerada tardia a reação dos médicos à forma como tem sido tratada a saúde dos brasileiros, nestes últimos dois anos. Ela veio, e não propriamente porque muitos deles deram a vida na tentativa de curar vítimas de um mal desdenhado, ridicularizado e generalizado. Poucas as reações anteriores, mesmo se absolutamente clara a (des)orientação do governo diante da covid-19. Foi preciso morrer um respeitado médico do Rio de Janeiro, até que os colegas decidissem dizer chegada a hora do basta! Quando os ataques ao bom senso e à dignidade humana combatiam o trabalho dos profissionais da saúde, não a pandemia; quando médicos, enfermeiros, auxiliares acompanhavam milhares de assistidos por eles mesmos, e vencidos pela enfermidade; quando o desrespeito à Ciência ganhava contornos enfurecidos, não faltaram desses profissionais para multiplicar a admiração pelo mito, aplaudir e disseminar mentiras, ignorar e subverter o juramento solene do momento da diplomação. Juntavam-se, portanto, aos cultores da morte, quando da vida lhes falara Hipócrates. De qualquer maneira, ainda que tardia, a razão parece estar voltando. Sempre será melhor o culto à vida que o culto à morte. Tanto quanto a manutenção da vida alheia, acima do egoísmo e das perversões típicas destes tempos de pandemia. sempre sem esquecer de que a covid-19 é apenas um dos muitos males atribuíveis a essas condições. Tarde será sempre melhor que nunca.

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