Anjos e belzebus

Vejo desfocada a repercussão nos meios de comunicação do fato de Jair Bolsonaro tirar do próprio bolso a maioria das pessoas indicadas para importantes cargos na estrutura do Estado brasileiro. Desta vez, entra no páreo em torno da vaga que o Ministro Celso de Melo abrirá no STF, no próximo dia 15, um ilustre desconhecido. Vem ele do Piauí e tem a fama de ser ágil no julgamento de ações que chegam ao Superior Tribunal Federal da 1ª Região.

Trata-se do desembargador Kassio Marques Nunes, em cujo currículo não consta passagem por qualquer das universidades veneradas pelas elites brasileiras. Ademais, um magistrado que não cabe no modelo de terrivelmente evangélico. Por enquanto, sabe-se dele a formação na própria Universidade Federal do Piauí e o mestrado concluído em uma Universidade privada portuguesa. Também já se divulga ter o novo candidato à vaga na alta corte o apoio do deputado Hélio Bolsonaro, chamado pelos íntimos, dentre os quais membros da família presidencial, Hélio Negão. A vantagem de ter Kássio no STF para alguns comentaristas vem da circunstância de reconduzir o Nordeste ao plenário principal do Poder Judiciário. O último representante dessa região foi o Ministro Ayres Brito, aposentado após firmar imagem positiva e respeitável na sociedade brasileira. Considerado um outsider, o magistrado piauiense surge com reais chances de ser o indicado, na que seria escolha pessoal do Presidente Bolsonaro, com a ajuda de parlamentar muito próximo do Chefe do Poder Executivo e de sua família. Essa proximidade parece incomodar os comentaristas, com o que me parece justo suscitar uma questão: qual de nós, Presidente, escolheria para os cargos mais importantes profissionais a que fôssemos hostis ou não desfrutassem de nossa confiança? Eu não o faria e creio que poucos fariam diferente. Não me parece prudente, portanto, reagir desfavoravelmente a esse critério de escolha. Intriga-me, de fato, o tipo de pessoas que estão mais próximas do Presidente e de sua família. Mesmo não aparentando ser esse o caso específico da substituição do decano do STF, o critério aqui admitido responde pela eventual inconveniência que os comentaristas apontam. A não ser a inexistência de pessoas efetivamente credenciadas dentre o círculo mais próximo, governante nenhum pode perder de vista as responsabilidades decorrentes do exercício do cargo e os compromissos com a sociedade, não apenas com uma parte dela. Ainda mais se parte ínfima, o que se chama corriola. Não se encontrarão anjos, visitando os infernos. A não ser belzebus, como se sabe também expulsos do Paraíso.

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