Anedota em má hora


Vivêssemos época sem pandemia, não provocaria mais que gargalhadas a conduta de algumas autoridades e seus liderados. A realidade, porém, exige discrição e comedimento. No mínimo, como sinal de respeito. Enquanto a covid-19 mata milhares de seres humanos, os círculos oficiais zombam da pandemia, ofendem os infeccionados pelo vírus e proclamam as virtudes de remédios de efeito nulo sobre o mal. Aqui, um lado aparentemente desimportante da questão. Fosse outro o caso, fosse menor a gravidade da pandemia, tudo poderia acabar em galhofa, ridicularia. Ridículos os que desdenham da Ciência e se expõem à execração pública. Mesmo quando se trata de manifestação de ignorância explícita, a permanência na escuridão cavernosa é decisão individual. Ao contrário dos ignorantes punidos pela desigualdade, os proclamadores da ignorância como virtude têm-na como preferência, contraposta ao conhecimento, científico ainda mais. Ocorre que a proclamação de virtudes inexistentes, qualidades ilusórias, neste caso corresponde à convocação ao suicídio. Também este, objeto de única e exclusiva manifestação da vontade do indivíduo, jamais como resultado do proselitismo ou da bravata de uns tantos. Que se tolere, lamentando-o, o suicídio dos que não aprenderam a respeitar a vida e os viventes! Que se tolerem, com lamentos também, os descontentes com suas próprias vidas. Para a sociedade sempre será melhor que todos não tenham razões para desqualificar essa fascinante e desafiadora aventura – viver. Temos que ser compreensivos para o gesto extremo daqueles a quem não interessa participar da sociedade humana. Não é justo, porém, nem ético, nem dignificante levar terceiros ao sacrifício autoimposto. Daí a necessidade de atentar para o que os especialistas chamam de evidência anedótica, uma espécie de outro nome dado à absoluta ignorância científica. Se, na percepção dos candidatos ao suicídio a anedota lhes poderá trazer um benefício, na dos esclarecidos e informados não cabe o mesmo juízo.

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