Andamos pra trás

Em Diário de Bordo/Comissaria (SECTD-Série Memória, nº 100, 03-12-2020) comentamos sobre a frustração do projeto mais consistente que o Amazonas poderia ter implantado, no início dos anos 1970, em termos de saúde. Referi-me à SUPERINTENDÊNCIA DOS SERVIÇOS MÉDICOS DO INTERIOR - SUSEMI, iniciativa interrompida e destruída pelo governo João Walter de Andrade, tanto quanto o foram, mais tarde e já sem ele, a CODEAMA e o Instituto de Cooperação Intermunicipal - ICOTI, este curiosamente criado pelo próprio coronel-governador. A condicional SE não pode ser usada para justificar erros, mas sempre virá à mente, quando se trata de aprender com os fatos. Refazer o passado jamais levará a algum (bom)lugar, mas construir o futuro exige olhar atento à trajetória de qualquer coletividade. Os princípios em que se embasava a SUSEMI-AM em grande medida foram replicados pelo SUS - este mesmo organismo que impede danos ainda maiores, sobretudo as quase 250 mil mortes já provocadas pela covid-19. O corre-corre que levou à implantação de pequenas usinas produtoras de oxigênio certamente teria sido evitado, dados os fundamentos do sistema em que a autarquia vinculada à Secretaria Estadual de Saúde (SS) estava estruturada. A hierarquização e a complexidade exigiriam a regionalização da saúde em bases sólidas, de que a consequência mais nítida estava na crescente complexidade das unidades assistenciais, espalhadas por todos os Municípios do interior, desde as pequenas unidades de pronto atendimento às unidades de tipo 6, em que a população encontraria até capacidade de receber tratamento intensivo. Fala-se, portanto, de UTIs, cuja necessidade se tem revelado crucial neste lamentável momento em que a crise por que passamos não afeta apenas a vida das pessoas e os negócios de pequena minoria, mas a saúde de todos. Crise que tende a agravar-se, mesmo se a vacina prometida e até agora não oferecida, vier a conter a fúria da covid-19. Agora, trato de outro aspecto da vida dos amazonenses, muitos deles dedicando-se à atividade pesqueira como trabalho. Há muito é reclamada a instalação de frigoríficos nas cidades mais importantes desse setor, com o que ficaria aberta a possibilidade de produzir o que os economistas chamam efeitos para a frente, dado que os outros efeitos (para trás, como o chamam os mesmos profissionais), estão ou estariam dados - dentre eles, a piscosidade dos nossos rios e a infraestrutura do frio. Só isso bastaria para admitir a expansão do setor e a instalação de unidades produtoras de indústria de conservas, embalagem, peles etc. nos municípios amazonenses. Seria rompida, portanto, a monocultura industrial, como oportuna e sabiamente o declarou o saudoso professor Samuel Benchimol.

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