Amor ao avesso


De surpresa não se fale. De loucura, muito menos. A nova manifestação do deputado Eduardo Bolsonaro apenas repete prática estimulada pelos que juram morrer de amor pela Pátria. Podem-se esperar, quando muito, poucas e tímidas reações, não necessariamente das fontes oficialmente obrigadas a comportamento austero e condizente com os foros de civilidade de que nos pensávamos portadores. Enquanto os pressurosos aplicadores de panos quentes tentam reduzir a gravidade das agressões à China e seu povo, outros protestam orientados pelo bolso, menos que pela cabeça ou o coração. Importa a estes, sobretudo, impedir a interrupção de suas rentáveis operações comerciais, tanta vezes confundidas com os anseios da maioria do povo brasileiro. Aquela parcela da população à qual só têm restado o tolo ufanismo cuidadosamente inculcado em sua mente. Os segmentos excluídos das extraordinárias vantagens auferidas em razão das exportações. Muitos deles, já agora ameaçados de terem reduzidos seus salários e ainda não cientes de quanto poderá impactar sobre eles a crise diplomática criada por ninguém menos que o Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Mais grave, ainda, um parlamentar em cujas veias flui em primeiro grau o sangue do Presidente da República. Nesse sentido, com a ajuda do próprio Embaixador do país agredido. A reação do diplomata oriental deixou-se trair pela emoção e mordeu a isca do provocador.

A manifestação do sinistro das Relações Exteriores do Brasil, de seu lado, apenas confirma o que a maioria dos brasileiros há muito constatou: trata-se de um profissional dos mais medíocres e subserviente dentre as centenas de diplomatas que passaram pelo Itamaraty. Não sou eu quem o diz, senão repercutindo o que é lugar comum na boca de influentes e competentes diplomatas instalados na Casa de Rio Branco.

Lembrar que um dia o parlamentar que zomba da instituição quase chega a ser nomeado representante diplomático do Brasil nos Estados Unidos da América do Norte, é dizer quanto se degradou a política nacional. Pior que tudo, sob o aplauso e o estímulo dos levianos e energúmenos. Não se pode descartar, apesar de tudo, que a aparente leviandade da mensagem do número dois deve servir a alguma causa, a algum – inconfessável – interesse. Amor nem sempre só com amor se paga.

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