Amazonas pós-pandemia

Veio, mais uma vez, da Ciência e dos que acreditam nela e a produzem, o melhor que poderia acontecer. A decisão unânime da Agência Nacional de Vigilância da Saúde- ANVISA em favor da aplicação emergencial das vacinas contra a covid-19, trouxe consigo certo alívio. Não aos que, punidos por crimes a que não deram causa, viram a pena de morte aplicada a seus entes queridos pelos que fazem da dor alheia motivo de prazer. Aliviada ficou a sociedade com o que foi dito e como foi dito, pelos membros da Agência. Nem o contra-almirante que a preside fugiu ao tom irreverente e desdenhoso em relação à conduta dos que o indicaram e sustentam à frente daquele importante órgão. Dos demais membros da Diretoria Coletiva, no total de cinco, só dois pertencem aos quadros profissionais da ANVISA. Além deles, os outros componentes indicados segundo critérios os mais diversos foram forçados a aprovar sem reservas o relatório da relatora, respeitada e respeitável pesquisadora nacional. Meiruze Sousa Freitas é o nome dela, a quem o coletivo foi unânime em lançar loas, como a mão estendida à palmatória do saber. As escolhas neste governo geralmente estabelecem critérios de que as expressões terrivelmente evangélico e a caneta é minha parecem os fios-condutores. Isso não bastou, porém, para obter nova das vitórias tão festejadas pelo Presidente da República, como a morte dos mais de 200 mil brasileiros. Ele bem que apostou em resultado diferente. O enfrentamento com o pretenso candidato ao seu posto sobrepõe-se a tudo o mais quanto se pode cobrar de quem tem nas mãos o governo da república. Pode-se imaginar, diante disso, que o contra-almirante Antônio Barra Torres terá contra si não um almirante como o título sugeriria, mas um capitão excluído das forças armadas. Destoando da maioria dos seus colegas das forças, Barra se deu inclusive o deleite de iniciar seu discurso de encerramento da histórica sessão com a leitura de palavras poéticas. E não deixou por menos, ao proclamar amor antigo e eterno à Ciência e aos que a fazem. O quanto basta para prever o mesmo destino de Henrique Mandetta. Beleza e verdade não são pratos servidos no cardápio oficial. Pelo que têm de indigestos à maioria dos comensais sentados em torno da mesa principal. Pior para todos, o engomadinho governador de São Paulo logo se aproveitou para fazer seu primeiro comício, diante das câmeras e sob aplausos. Ninguém duvida qual a primeira providência de João Dória, saído da tragicômica encenação – o lavatório, menos pelo vírus que pela cor da primeira vacinada em seu Estado. Destaque-se, nesta tarde de um domingo inesquecível, a intervenção do Assessor Parlamentar da Câmara dos Deputados, Professor Alex Campos. No pronunciamento dele, que deve ter tocado a quantos o ouviram a reiterada menção à Política e proclamado amor à democracia. Outro que pode ter a cabeça cortada. Se tudo isso for verdade, e se os amazonenses – de nascimento ou de opção – tivermos um pouco de sensibilidade (talvez até seria mais próprio dizer humanidade) jamais esqueceremos quanto podemos, os sobreviventes, influenciar o nosso futuro, subserviência e rapapés gratuitos para sempre eliminados de nossa conduta e relações com os que se pensam todo-poderosos. Até ontem, a conta foi paga pelos mais de 6 mil mortos no Estado. E à desídia, à negligência e à incúria deveremos oferecer cada dia menos espaço para moverem-se.

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