Além de bois outros voam


Seria arriscado imaginar exagerado o amor à natureza dos 38 empresários que firmaram posição em defesa do ambiente, levado ao Vice-presidente Hamilton Mourão. Deve-se considerar, no entanto, o papel desse grupo de empresários em eventual mudança no tratamento que o atual governo dispensa ao ambiente. Listar atos representativos da hostilidade dirigida ao setor e aos preservacionistas seria pura perda de tempo. Tudo quanto se dissesse jamais equivaleria à manifestação clara e assombrosa do ainda hoje Ministro Ricardo Salles, na pedagógica reunião ministerial de 22 de abril. Não se pode, inclusive, ignorar o senso de oportunidade que cerca a apresentação do documento dos empresários e 4 organizações. Chegando em mãos do general que também coordena a Comissão da Amazônia quando o Ministério Público Federal pede à Justiça o afastamento de Salles do posto, o manifesto empresarial tem tudo para engrossar a voz do MPF. A carta, óbvio, terá em conta manifestação de um grupo de investidores internacionais responsáveis pela fabulosa dinheirama disponível para investimentos mundo a fora. Afinal, 20 trilhões de reais não cabem nas algibeiras de ninguém. Em especial, quando se sabe que o capital não tem Pátria, nem coração. Disseram-me isso quando eu era adolescente; continuam a dizer-me, ainda hoje.

O mote principal da carta é o desmatamento da Amazônia. Motivaram-na, afirmam os subscritores, os prejuízos decorrentes do desmatamento na imagem negativa do Brasil no exterior e – principalmente, arrisco afirmar – restrições aos negócios do interesse das empresas representadas no grupo. Outra vez, o bolso mostrando-se mais sensível que o coração. Algo que não constitui um defeito por si mesmo, mas pelo egoísmo e a insensibilidade que o acompanha.

Ao que se sabe, a carta dos empresários chegará ao STF, ao Senado Federal, à Câmara dos Deputados e à Procuradoria Geral da República. Esta última a receberá para integrar os autos da ação civil pública movida por 12 procuradores federais, que acusam Ricardo Salles de“ desestruturação dolosa das estruturas de proteção ao meio ambiente”.

Desta vez, até empresários do agronegócio se juntam ao grupo, não obstante o vínculo histórico desse segmento do setor primário com a devastação de florestas, não só na Amazônia. Em tempos de pandemia, tudo é possível, mesmo se os bois já voam.

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