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Ainda não é tarde demais

Os brasileiros decentes e que se dão a respeito não podem fingir que não viram, não ouviram ou não souberam. Refiro-me a duas declarações e a duas pessoas, nenhuma delas – declarações e pessoas – podendo ser negligenciada. Não por supostas virtudes que palavras e condutas desmentiriam, mas pela responsabilidade pública que delas se pode exigir. Os protagonistas são o Presidente da República e o general ex-sinistro da Saúde, que um senador qualificou como um ajudante de ordens do ex-capitão. As palavras foram as que o general proferiu, ao ser informado de que a aquisição de vacinas fora desautorizada: simples assim – um manda e outro obedece. A essa lamentável declaração, o ex-sinistro acrescentou, diante de senadores perplexos e milhões de telespectadores, referindo-se ao episódio: as declarações do Chefe não devem ser levadas a sério, porque são jargão militar ou linguagem de redes (anti)sociais. Tratando-se de quem se trata, não estamos diante de assunto corriqueiro, por isso ensejando a cobrança da sociedade ao próprio Ministério Público. O que disse Pazuello até hoje nenhum dos milhões de desafetos que o Presidente tem feito questão de produzir chegou a dizer. O linguajar presidencial, recusado no mais desacreditado lupanar, tem como espaço preferido as tais redes, fonte da maioria de suas agressões aos demais poderes republicanos, às chamadas minorias, a nações estrangeiras, aos familiares e vítimas da pandemia, e ao Estado democrático de Direito. Caso se desconsiderassem as declarações do Presidente em repetidos encontros com seus seguidores, em manifestações públicas por ele mesmo convocadas e nas postagens que realiza na maior parte do elástico tempo de que dispõe, estaríamos compactuando com sua conduta, por vários motivos incompatível com o cargo de Presidente da República. Penso ser o caso de a OAB, a ABI e a CNBB, além de quantas outras instituições e entidades há comprometidas com a democracia, instarem a PGR a proceder a responsabilização do Presidente. Nem se trata de discutir se é ou não oportuno fazer isso agora, porque já tarda.

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Raros os que são servidores públicos.

Uma parte pode até preservar o básico das instituições, mas o fazem porque são parasitas do Estado. Não têm espírito público.

Como diria Cazuza, meus inimigos estão no poder...

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