Ainda é cedo

Há unanimidade apenas em um ponto, na análise dos especialistas relativa às eleições municipais: é cedo para prever como e a que resultados levará a eleição presidencial de 2022. Embora os crentes na existência do centro como algo concreto deem essa gelatinosa posição como a grande caudatária da insatisfação popular, será sempre arriscado apostar todas as fichas nessa hipótese. Primeiro, porque ao longo da História jamais a opção centrista deixou de vincular-se ao oportunismo, zerada a perspectiva de preocupação ideológica. A política, assim, não extrapola o estreito espaço do mercado. Compra-e-venda, não negociação de caráter político, é seu forte. Nesse ambiente, só contam os números, não outra qualquer variável. Depois, a própria exuberância do elenco partidário facilita essa convivência danosa ao processo democrático. Oferta ampliada, preço aviltado. Também frequenta as análises a preocupação com o reflexo das urnas no projeto pessoal do Presidente da República. Candidatíssimo à reeleição desde 01 de janeiro de 2019, Jair Messias Bolsonaro tentou pulverizar o PSL, não o conseguindo. Como, depois, não conseguiu criar um partido feito à sua imagem e semelhança. Não obstante, é maior a paciência dele que a dos estudiosos analistas. Neste caso, os números do primeiro turno não autorizam conferir-lhe os louros ou dizê-lo provar o amargor da derrota. O segundo turno, de fato, dará a resposta agora em vão procurada. Se o credenciamento de Manoela d’Ávila, Guilherme Boulos, João Coser e Edmilson Rodrigues e o enfraquecimento de Marcelo Crivella no segundo turno, aparentam perda, é necessário observar os números que estão por vir. É possível, mesmo assim, tirar algumas conclusões, pelo que têm de consolidadas, imunes ao resultado das urnas do dia 29 próximo. Lembro: conclusões insuficientes para antever o que virá. A primeira delas tem a ver com a perda de espaço do PT. Ninguém dirá que tal circunstância levará o partido de Lula a pôr à bola no chão e superar o messianismo e o personalismo característicos. Quem sabe até definir seus compromissos ideológicos, não meramente personalísticos. Neste caso, a fotografia do cidadão Luís Inácio Lula da Silva deve enfeitar a sala principal das sedes do PT. Presidente de honra é quanto basta. Eventualmente feito oráculo, parecerá conveniente poupar o ex-Presidente de interferir no cotidiano do partido. Não se deixe o destaque de Manuela d’Ávila impulsionar entusiasmo irracional. O eleitor comum, em geral distante de opção ideologicamente justificada, é como a nuvem a que Tancredo Neves e José Maria Alkmin davam atenção. Em segundos, muda de posição e configuração. A insatisfação passageira não cansa de repetir-se. Nada indica que cedo cansará. No caso dos candidatos do PSol (Boulos em SP; Edmilson, em Belém) e de Manuela (PC do B, Porto Alegre), ainda é cedo para dizer deverem o sufrágio à convicção progressista dos eleitores. Mais uma vez, a insatisfação com o status quo pareceu decisiva. Tão arraigado e bem cultivado é o conservadorismo, que mesmo a desigualdade quase nunca é posta em questão. Daí resulta oportuna a pergunta: vale a pena conservar a fome, a violência, o desemprego, a doença, a concentração da riqueza? Mais grave é ver e ouvir tonitruantes declarações de amor e apego ao conservadorismo, mesmo por pessoas vitimadas por ele. Não se trata, neste caso ao menos, de reação minimamente dotada de racionalidade. Ao contrário, essa espécie de autoflagelação política é estimulada por maciços investimentos, de que as redes (anti)sociais e as fake-news dão conta. Curioso apenas, causa-me certa estranheza ver posta de lado uma questão a meu ver crucial, na realidade política. Se da democracia pode-se exigir a possibilidade de rotatividade do poder, como admitir as atuais bases em que se assentam o financiamento das eleições e da atividade partidária? Se a boa democracia impõe a máxima um cidadão, um voto, o financiamento deveria obedecer à máxima correspondente: a cada sigla, o mesmo valor. Só isso equilibraria a disputa eleitoral. Mas, como diz a canção é cedo ainda pra dizer adeus...


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