Agonia

A jornalista Cristiane Pelajo, âncora do Jornal das 4, da Globonews, dramatizou o que pode. Ao abrir a edição da sexta-feira, 15-01-2021, fê-lo com extrema contundência: Manaus agoniza - disse ela, com entonação quase teatral. É verdade que na capital amazonense a pandemia chegou a um ponto extremo. Já não são leitos, equipamentos ou profissionais da saúde que faltam. Enquanto abundam e só tende a crescer o número de covas nos cemitérios da cidade, recém-nascidos morrem à falta do oxigênio que os faria viver mais que algumas horas. Não é só Manaus, porém, o espaço do enorme palco montado Brasil a fora, em cenário igualmente trágico em escala mundial. Assim, a verdade pronunciada pela telejornalista é apenas parte de situação mais ampla, a desafiar, mais que a Ciência, a consciência dos homens. Bastaria pouco, para ter-se diante de nós a gravidade da pandemia e quem e o quê responde por ela. Os números registrados nos Estados Unidos da América do Norte, a nação mais poderosa e belicosa do Mundo impedem a cegueira que a má fé tenta impor aos contemporâneos. Nem menciono a comédia encenada pelo felizmente quase-ex-Presidente Trump, eis que faltam apenas uns poucos dias para ser mandado às coxias. Se os norte-americanos aprenderão a lição é problema deles. Interessa-nos apenas quanto à posição que adotaremos nós, brasileiros, diante dos próximo e sucessivos governos que lá se instalarem. Nem por isso nossa tragédia terá chegado ao fim. O clima de absurda apatia, de que resulta o crescente apoio ao governo brasileiro, é dado importante da cena referida pela jornalista da Globonews. Não se trata, portanto, do estado agônico desta ou daquela cidade. Em agonia estamos todos, acometidos ou não pelo vírus, residentes em palafitas ou em mansões, não importa a idade que temos. Porque, antes de sermos colhidos pela covid-19, a ela tendo sucumbido ou superando seus efeitos, premiamos com nossa inércia os que nos fazem e trazem o mal. Sob suas mais ostensivas ou disfarçadas facetas. Essa, sim, é a agonia de toda uma nação, refém de ignorância que boa parte faz questão de cultivar. E por um egoísmo sem tamanho, agravado pela indiferença diante da trama ignóbil que, qual tsunami enfurecido, lança-se sobre nós. É o Brasil que agoniza, não uma de suas cidades mais importantes.

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