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Absurdo gera absurdo

Texto assinado pelo articulista Vinícius Torres Freire (FSP, 21-07-2022) chama a atenção para a repercussão do vexame presidido pelo ex-capitão excluído das forças, diante de plateia internacional. Preocupa-se em identificar na longa lista de manifestações de repúdio, os setores envolvidos e a busca de recursos em áreas até então tratadas de forma diferente da que se verifica agora. Sem mencionar explicitamente, o jornalista aponta o dedo na direção daó fontes da leniência que estimulou, por ação ou omissão, a marcha agora posta em transparente e ofensiva aceleração. Também não consegue esconder a zombaria, quando se refere às formas de expressarem-se diversas instâncias da sociedade civil. O manifesto escrito e publicado, o cenho cerrado e as palavras supondo indignação, nada disso pôs um só cidadão nas ruas. Não omite, porque seria incidir no mesmo pecado dos outros, quantos fingem nada ter a ver com o que está a se passar, no linguajar próprio dos irmãos d’além-mar. Ao fim e ao cabo (ou sargento? Ou capitão?), a denúncia: está em marcha, para opor-se à caminhada autoritária, acordão feito à moda da casa. Não há vencedores, nem há perdedores, de um lado e do outro. Simplesmente porque perdem todos. Alguns, posições de poder e oportunidades de delinquir e pagar pela delinquência. A parte mais distante da tecelagem onde se opera a trama perde mais que isso – a esperança. A perda dos outros é contabilizada na moeda da dignidade. Juntados todos, colocadas as perdas respectivas, cada qual na conta correspondente, quem perde mais é a nação. Uma espécie de antiproduto nacional bruto (e haja brutalidade nisso!) À falta de acórdão, como insinua Vinícius Torres Freire, todos fazem cara de paisagem e continuam a exercer um tipo de tolerância que se vai fincando nas profundas e firmes raízes da cumplicidade. A forma que a leniência assume, quando demasiada. O que mais me chamou a atenção, no texto comentado, diz respeito à reivindicação aparentemente absurda de levarmos não ao bispo nem ao Papa nosso clamor indignado. Visitamos, sem cerimônia, parlamentares e autoridades da metrópole, esquecidos do discurso inflamado de passado que parece sepultado junto com os corpos de quase 700 mil brasileiros, muitos deles mortos não só pela covid-19, mas pelo desdém dos que só hoje aparecem como carrascos. Para compreender o aparente paradoxo, contudo, é preciso avaliar o grau do absurdo a que chegamos. Como nossos autoproclamados heróis e patriotas, temos claro quem é o dono da voz (lembra-se da RCA?) e quem a exige roufenha, desprovida de força ou, ao contrário, capaz de cobrar obediência e submissão. Como, na lógica abjeta que comanda os atos e ações oficiais, um manda, outro obedece, nossas lideranças, algumas pretensas apenas, sabem quem procurar.

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