Abastança e abastardamento

Aproxima-se, em velocidade impressionante, o pleito presidencial de 2022. São diferentes entre si a velocidade do tempo e a dos políticos. Dependente do movimento do sistema planetário, a pressa com que o primeiro se move não coincide com a celeridade dos que vivem pelo e para o poder. E todos os molhos e sobremesas que tornam o repasto mais saboroso. Eras são chamados os períodos sucessivos da História Natural, nome que parece mais sepultado que os quase 300 mil cadáveres humanos vitimados pela covid-19. O tempo dos outros, espécie humana peculiar, é medido segundo o calendário editado pela Justiça Eleitoral. Daí o clima de campanha eleitoral permanente, preservado e estimulado a qualquer custo pelos que chegam ao poder. Suspeito que as mais recentes declarações do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso resultam de anacrônico remorso. Um sentimento que chegou fora de hora, sobretudo por não excluir a responsabilidade do sociólogo tantas vezes reverenciado, na montagem do cenário em que se representa a mais perversa tragédia de nossa história. A insistência em obter o segundo mandato, e as práticas que levaram a consegui-lo justificam o remorso. Sem que este baste, eis que não altera o cenário. Interessa, portanto, ter olhos atentos à realidade de hoje, à qual se integram resíduos de um passado teimoso muitos outros ingredientes. Alguns destes, percebidos em outras sociedades, mas aqui desdenhados. Quando não, substituídos por ingredientes mofados e perecidos. Em grande medida, a percepção tacanha e primária das lideranças políticas resulta na recusa a, pelo menos, alinhavar o que se poderia chamar projeto de nação. Tal impossibilidade, porém, a ninguém deveria surpreender, face à frequente inexistência até de formular um projeto de governo. A tomada do poder e seu exercício, seja lá como for, entretém os protagonistas e faz agonizarem os mais de 230 milhões de figurantes. Exceções existem, sim, mas facilmente identificáveis dentre os que, à sorrelfa, compartilham do regabofe político. A esses também interessa manter lugar à mesa bem-servida. Aos demais, o resto intragável e indigesto do que cair ou escorrer – se for o caso – da mesa abastada. Enfim, uma sociedade abastardada, levada ao sofrimento e condenada a, no máximo, ver-se contaminada pelo perdigoto mortal desferido pela boca suja dos seus algozes.

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