A varanda e os serõezinhos de Machado Coelho*

1. Subida a escada

A imagem permanece na minha memória. O homem vestia apenas a calça comprida do pijama. O tórax parcialmente desnudo facilitava a cuidadosa operação que o entretinha. Uma das mãos equilibrava caprichosamente um dos milhares de volumes abrigados nas muitas estantes que forravam as paredes da sala. Como igualmente faziam com as paredes de outros cômodos da construção tipicamente portuguesa. A outra mão passava com carinho indescritível pequeno pano umedecido não se sabe em que milagrosa poção[1], na lombada e no miolo aparente de cada volume.

Não precisara ir além do patamar em que a pequena escada findava, para ver a síntese viva da reunião diária de homens e mulheres que pensavam e, através seja de que arte for, faziam seus pensamentos circular entre os contemporâneos. Entre os pósteros, também.

A cena parecia magnetizar-me. Cumprimentei o dono da casa, mas não repeti o cumprimento costumeiro. O impacto daquela cena foi muito além da admiração já consolidada.

Testemunha da reunião noturna do grupo de intelectuais, só me faltava assistir àquele espetáculo solitário, síntese do verdadeiro amor ao livro e à leitura. Muito tempo depois, dei-me conta do efeito do ocasional encontro sobre minhas relações com a obra impressa. Reforçava-se, então, o gosto pela leitura e o prazer do contato com o livro, aprendidos com meu próprio pai. O estímulo que trazia de casa multiplicava-se ali – e sequer eu podia, àquela altura da vida, imaginar que fosse assim...

Amigo do terceiro da numerosa prole do dono da casa, frequentava-a quase diariamente. Também a frequentavam, por motivos diferentes dos meus, poetas, escritores, pintores, bailarinos, etnólogos, antropólogos, filósofos, historiadores e outros integrantes da intelectualidade paraense. E da que aportava na cidade.

Era em torno de Inocêncio, o pai, que se travavam as mais enriquecedoras discussões. O anfitrião era-o, mas era sobretudo o catalisador e animador do que ele mesmo batizou de "serõezinhos". Na verdade, aquelas reuniões me pareciam réplica do que nos ensinara o professor Francisco Paulo do Nascimento Mendes, ele também frequentador assíduo da então chamada varanda de Celina e Machado Coelho, os pais do meu amigo.

Admirador daquele homem simples e bem-humorado, só décadas depois daqueles dias de despreocupada adolescência soube-o fundador do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará - FAEP[2], e ex-diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Se, no passado, reunira motivos para admirar Machado Coelho, agora vejo ratificado meu convencimento a propósito das pessoas e as posições profissionais ocupadas. Estes é que engrandecem aquelas, não o contrário.

O fundador do IAEP e ex-diretor do MPEG foi, também, Chefe de Gabinete da SPVEA e do Tribunal Regional do Trabalho, dentre outros cargos. Nestes, portou-se como se portam os dignos. Não amealhou fortuna, como não se fez áulico. O destaque maior, que a humildade do servidor público não conseguiu obscurecer, quem o conferiu e tornou conhecido foi o amor dedicado aos livros e o que disso resultou.

2. A época

Estudante, como Inocêncio (o filho), do Colégio Estadual Paes de Carvalho, era certa minha presença na casa da família Machado Coelho, quase diariamente. Se a presença se registrava à noite, lá podia testemunhar a reunião de pessoas que não apenas estimávamos, mas tínhamos como das mais brilhantes e pensantes cabeças do Pará.

Se Francisco Paulo do Nascimento Mendes, o tio Mendes para os mais jovens anfitriões, era credor de nossa estima e admiração, também o eram Ruy Guilherme Paranatinga Barata, Benedito Nunes, Raimundo de Souza Moura e Mário Faustino. Outros havia, mas esses eram os que mais festejávamos. Sem falar nos frequentadores eventuais, como Rui Coutinho, Cléo Bernardo, Manuel Lobato, João Fernandes, Edgard Olintho Contente, Haroldo Maranhão, Jocelyn Brasil, Garibaldi Brasil, Nunes Pereira, Eidorfe Moreira, Josué Montelo, Osvaldo Orico, Gilberto Freyre, Adalcinda Camarão, de Campos Ribeiro, Edgar e Edyr Proença, Edgar Vianna, Frederico Barata, Paulo Plínio de Abreu, Waldemar Henrique, Líbero Luxardo, Zora Seljan, Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, Leônidas Monte, Walter Égler, Cléo Bernardo e Sílvio Braga, Max Martins, Simão Bitar, Maurício Coelho de Souza, Arthur César Ferreira Reis e Djalma Batista.

Muitos desses frequentadores iam diariamente à varanda; outros frequentavam-na menos. Muitos deles, morando em outras cidades ou Estados, ou mesmo no exterior, só iam lá quando em passagem pela capital paraense. Logo se vê que o ímã de Machado magnetizava não apenas os jovens iniciantes, como eu...

Quanto lamentávamos não ter as condições necessárias à participação naqueles saraus: a erudição, a cultura e a idade. Não éramos mais que adolescentes mal iniciados nos caminhos da literatura, da arte e de tudo o que se relacionava à cultura. Alguns dos que se reuniam em torno do velho Machado eram responsáveis pelo gosto que em nós se ia formando.

Hoje me dou conta de que nasceu ali, arrancando à distância a semente que prosperou, o Silogeu dos Novos. Foi assim que denominamos o grupo de ginasianos reunidos a cada semana, para declamar poesias, ler textos em prosa e comentar livros e filmes lidos e assistidos, ou obras de arte que certamente ainda não tínhamos a menor condição de criticar. Apreciar, talvez, um pouco apenas. Ou simplesmente comentá-las, ao sabor da ousadia própria dos jovens. Pelo menos os daquela época ...

Depois o Silogeu, de que Inocêncio, o filho; Pedro Cruz Galvão de Lima, a promessa de poeta que se concretizou; Marcelo Caminha Gomes, hoje físico respeitado, e Luís Flávio Figueiredo de Lima, médico precocemente falecido – participávamos, não tardou a ser substituído pelo Centro de Propagação Cultural. Aí, já se encontravam no grupo Renato Tapajós e Luís Fernando Castro, todos envolvidos com a primeira feira de livros realizada em Belém, na Praça da República. Sem atinarmos para essa circunstância, o lugar da feira se beneficiava dos bons ventos soprados da casa nº 158 da Avenida Assis de Vasconcelos, sede dos serõezinhos de Machado Coelho. Cerca de 100 metros distanciavam-nos daquele profícuo e simpático ambiente. Quem sabe não vinha dali nossa inspiração?!

O dono da casa, bibliófilo dos mais sofisticados que conheci (não fosse testemunha da cena acima descrita), poderia reivindicar para si a identidade com o próprio vocábulo - amigo dos livros. Mais que leitor, mais que cuidador de livros, Machado Coelho parecia absorver deles o oxigênio que o manteve entre nós até perto do centenário. E quão prolífica foi sua vida!

Quando se fala em bibliófilo, imediatamente é lembrado o nome do industrial José Mindlin. Talvez porque tenha vivido no Estado mais rico da Federação, o ex-proprietário da empresa Metal Leve tenha seu amor pelos livros festejado. Na Amazônia, porém, viveu um intelectual que obtinha, cuidava e divulgava obras literárias com resultados talvez mais expressivos que os alcançados por Mindlin. Era Inocêncio Machado Coelho.

Já não tivesse bastado gerar onze filhos, ele é o exemplo mais evidente de que a inteligência e a dedicação a uma causa – o livro e o saber, no caso dele – superam a instrução escolar. Se é que não fazem desta, ao contrário, mero ornamento – ou o cumprimento burocrático de uma prosaica obrigação legal.

A efervescência do período entre-guerras gerava o sentimento e a necessidade de buscar a identidade nacional, ao mesmo tempo em que a inserção na sociedade internacional, que parecia mostrar-se mais aberta. A produção dos escritores da época traz para o papel as angústias, os anseios e a percepção das artes como fator relevante na vida social. Nesse período, qualquer jornal diário que não destacasse espaço para o trato das coisas do espírito – seções de cinema, de literatura, de artes em geral – estaria em desvantagem diante dos que o faziam.

Buscava-se, então, a prosperidade econômica, sim; mas também era facilmente percebida a falta de sentido, quando tal busca se faz sozinha, voltando as costas para a cultura.

Em Belém do Pará, desfrutava-se do clima de relativa liberdade espalhado por todo o País, desde a queda da ditadura Vargas. Compreensível, portanto, que os intelectuais procurassem qualquer oportunidade para trocar ideias e alimentar os sonhos que os embalavam. Se bem que houvesse bom número de nostálgicos do período autoritário, a maioria desejava ver a prosperidade do Brasil e se entregava a discutir os aspectos que lhe pareciam exigentes de solução. Prosperidade, diga-se, sem abrir mão da altivez, da identidade – da própria História, enfim...

Tem muito a ver com a esperança assim cultivada a existência de lugares onde se reuniam os sonhadores, em um tempo ainda muito distante da prevalência dos bens materiais sobre os gozos espirituais. Se na varanda de Machado Coelho toda noite um grupo de pessoas das mais variadas profissões dedicava-se a discutir literatura, arte e, com menor entusiasmo, as coisas da política, o Central Café recebia parte delas, quando saía do casarão do velho Machado.

Ambos, o Central Café e a varanda da Praça da República eram palco de acesas e enriquecedoras discussões, retratando uma época que valorizava o saber e a cultura sem que os protagonistas do processo se dessem conta disso, mesmo se o encarassem com toda naturalidade.

Daquele café, em que o poeta João de Jesus Paes Loureiro ambientou seu primeiro romance[3], muitos de nós fazíamos elo da viagem casa 158 da Avenida Assis de Vasconcelos-Bar do Parque. A fome de conversa temperava-se com uns e outros cafezinhos, raramente uma cerveja.

Desse tempo é ilustrativo o testemunho do Jornalista Lúcio Flávio Pinto, ao considerar que “Machado Coelho escrevia como um clássico, mas sem pose”.[4] O autor do Jornal Pessoal acentua um traço importante da personalidade do catalisador de cultura, o gosto pela conversa, mais que a preocupação em registrar em livros seus pensamentos e suas percepções da arte e da vida. Daí ter afirmado:

“Mas (Machado Coelho) escreveu pouco e publicou quase nada em vida, na forma mais perene (ainda), a do livro. O que ele queria era ler, conversar com os amigos e circular pela cidade, de “flosô”, como se dizia”.

Nesse ponto, o combativo jornalista santareno ratifica a impressão dos que conheceram

Machado Coelho, tão bem retratado por Célia Bassalo, sua filha. É dela o depoimento:

“Foi com essa visão de que biblioteca é um universo à medida do homem, que o escritor, jornalista, crítico literário e causeur Machado Coelho leu e construiu ao longo dos anos, com muito sacrifício, a sua selecionada biblioteca humanística, pois o conteúdo de seu acervo é o que forma o espírito humano pela cultura literária de modo geral”.[5]

Sua trajetória de homem público iniciou-se em 1937, quando foi nomeado Arquivista da Biblioteca e Arquivo Público do Estado do Pará. Certamente aí terá sido dada a melhor oportunidade que um amante dos livros há de ter, para explorar todo o seu gosto e sua dedicação às coisas do espírito. A aproximação do amante com o objeto de seu amor.

3. O homem de todas as letras[6]

Embora minha frequência assídua à casa dos Inocêncio, pai e filho, tenha durado de 1957 a 1962, a presença de Machado Coelho no panorama intelectual do Estado do Pará se fazia sentir desde muito antes. E não se fez gratuitamente, porque os postos do serviço público por ele ocupados lhe permitiram por em prática muitas das ideias que sua mente perspicaz e comprometida com a região formulou. Se isso era sua missão oficializada, ele mesmo engendrou outra, a de animador de ricos saraus – seus serõezinhos de toda noite.

Nascido em 1909 e morto próximo do centenário, a ele foi dado experimentar as vicissitudes de um mundo açoitado pela Primeira Guerra Mundial e as consequências da Semana de Arte Moderna, ainda criança; a Revolução de Trinta e as profundas alterações que dela advieram para a sociedade brasileira, mal saíra da adolescência; a Segunda Guerra e as conflagrações regionais e nacionais decorrentes, dentre outras causas, da reunião de Yalta; a primeira redemocratização do Brasil; o golpe militar de 1964 e parte de suas consequências, já adulto.

Vida assim tão longa, só aos pobres de espírito não proporciona o enriquecimento cultural e o acúmulo de sabedoria, incapazes de serem sorvidos nas taças acadêmicas. Daí ter Machado Coelho captado os sinais de seu tempo e, por via dessa contemplação produtiva, deixado o registro de suas observações e seus juízos.

Mas não é da progressão funcional de Machado que tratarei, neste texto. Interessa, sim, pontuar sua produção intelectual, revelada em numerosos trabalhos publicados em colunas de jornal e na forma de livro.

Outras funções públicas propiciaram a Machado a oportunidade de ampliar o ângulo de que apreciava os fatos. Não terá sido em vão sua passagem pela direção do Museu Paraense Emílio Goeldi, tanto que logrou criar o Boletim em que o resultado do labor investigativo de seus colegas cientistas foi posto no mundo.

Precisa dizer pouco, a respeito do período em que esteve na Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, quando Arthur César Ferreira Reis ocupava o posto mais alto. Primeiro como chefe de Gabinete, depois como membro da Comissão de Planejamento, Machado viu mais tarde sua dedicação e proficiência reconhecidas, com a atribuição de seu nome à biblioteca da atual Superintendência da Amazônia- SUDAM. Nada mais apropriado para aquele espírito refinado, que essa homenagem.

Menor não foi a participação e a contribuição oferecida pelo catalisador de talentos e inteligências, nos outros cargos públicos por que passou. Igualmente, sua presença no Instituto Histórico e Geográfico do Pará – IHGP e na Academia Paraense de Letras engrandeceu ambas as instituições.

Importante, pois, mencionar o excelente trabalho de Machado Coelho, na revista Novidade (coluna Belém artística), de cuja criação participou, junto com Haroldo Maranhão e outros intelectuais. Pelo menos de 1940 a 1942, seus comentários na coluna sobre livros apresentaram crítica literária interessante, porque vazada em amplo conhecimento do ofício. Também neles pode-se testemunhar a cultura multimorfa do autor além de apreciável erudição. Não a erudição ornamental, ostentatória, mas o conhecimento sólido, transposto para o papel como enriquecimento do texto e elucidação do leitor.

Essas qualidades também estão marcadas na coluna Crítica literária, que Machado manteve em A Província do Pará, um jornal diário de Belém.

Em ambas, encontra-se, reiteradamente, exemplo evidente de uma diferença que considero fundamental para a compreensão de uma – a erudição – e outra – a cultura. É detentor da primeira quem faz da própria memória um baú onde se deposita toda sorte de relíquias e bugigangas. É culto quem, retirando uma peça de dentro do baú, transforma-a, seja pelo acréscimo de algum elemento, seja pela opinião, seja pelo julgamento. Talvez valha dizer que um é o descritor, sendo escritor o outro.

Ao simplesmente erudito geralmente ocorre de guardar para si os tesouros ou utilizá-los como objeto de ostentação, de humilhação dos que não os têm. O culto, transformando a peça entesourada, distribui os benefícios dessa operação entre os que lhe dão ouvidos. Os que não fazem ouvidos de mercador, para aproveitar uma das mais expressivas críticas do próprio Machado Coelho.[7]

Produzindo quatro colunas mensais para o diário paraense, com o título Vida literária, o crítico frequentemente teceu considerações em cada uma delas sobre mais de uma obra. Quanto tempo dedicava à leitura! Tal circunstância é atestada pela abordagem criteriosa e profunda dos temas, aí revelando a enorme capacidade de apreensão da obra e os dotes que só um bom escritor apresenta. A ironia, por exemplo, marca os textos editados pela revista, de março de 1940 a maio de 1942.

Há alguns momentos, na prosa de Machado, que nos lembram José Saramago. Por isso, ao lermos os textos publicados tanto na Novidade, quanto em A Província do Pará, é inevitável a emersão, do mais fundo de nossa memória, do livro As intermitências da morte[8], do grande escritor português, justamente premiado com o Nobel de Literatura.

Passam pelo crivo do crítico autores da literatura regional, nacional e internacional, podendo citar-se dentre eles: Osvaldo Orico, Arthur César Ferreira Reis, Bruno de Menezes, Augusto Meira; Gustavo Barroso, Genolino Amado, Gilberto Amado, Carolina Nabuco, Arnon de Melo, Francisco Campos, Lúcio Cardoso, Jorge de Lima, Viana Moog, Herman Lima; Jules Romains, De Gaulle, Jane Austen, Aldous Huxley, G.H. Wells, Jean Babelon.

Também o diário antes dirigido por Romeu Mariz[9] publicou coluna intitulada Belém Artística, sob a responsabilidade de Machado Coelho. Pelo menos dez textos datados de 1976 (fevereiro a junho) ampliam e reforçam a imagem do autor como um amante das artes e profundo conhecedor do assunto.

No jornal em longo período dirigido por outro dos fundadores[10] do Instituto de Antropologia e Etnologia do Pará – IAEP, os comentários referem-se a peças de antiquário, suspeito que muitas delas hoje abrigadas no Museu de Arte Sacra do Pará.

O trabalho que precocemente me chamou a atenção é o Minhas canções de Verlaine. Nele, Machado Coelho dá mostras de muito mais que bom tradutor. Revela-se nas páginas do opúsculo editado pela Gráfica Falângola Editora, em 1951, inspiradíssimo poeta.

Se comparadas as traduções feitas por Alphonsus de Guimarães e Machado Coelho, torna-se mais evidente ainda a qualidade do trabalho do catalisador da Praça da República. Vale a pena compará-los, a partir da primeira estrofe do poema que serviu de senha ao desembarque das tropas aliadas na Normandia.

Em francês:

Les sanglots longs

Des violons

De l’automne

Blessent mon coeur

D’une langueur

Monotone

A tradução de Alphonsus de Guimarães:

Os soluços graves

Dos violinos suaves

Do outono

Ferem a minh’alma

Num langor de calma

E sonho.

Agora, a tradução de Machado Coelho:

Solos de langue

Violino exangue

Ferem no outono

Meu coração

De lassidão

E de abandono.

Mesmo para ignorantes de técnicas e de artes poéticas fica fácil perceber quanto a tradução do intelectual paraense é prenhe de poesia, mais que de tradução. Talvez aí, o medo de tornar-se traditore[11] tenha levado ao cuidado com que Machado Coelho verteu para o Português a bela estrofe inserida no livro Poèmes Saturniens. Também se pode ver quanto o tradutor se vale de seus próprios dotes de poeta.

O opúsculo de Machado reúne poemas publicados em vários livros do companheiro de Rimbaud. Além do Chanson d’automne (Poèmes saturniens), a obra traz En sourdine (Les fêtes galantes), La lune blanche, Le foyer, la lueur..., (La bonne chanson), Ariette oubliée, Green (Romances sans paroles), Les mains, Silence, De profundis (Sagesse), e Pour E...(Poèmes divers).

Minha admiração pelo fundador e então presidente da Aliança Francesa no Pará terá sido a causa maior de, cedo, ter decidido inscrever-me em um dos cursos lá ministrados.

A propósito dos vínculos de Machado Coelho com a França, que para ele certamente seria mais o país de Verlaine e Rimbaud que de Charles de Gaulle e Nicolas Sarkozy, destaque-se a perfeição com que falava a língua francesa. Falava-a como se fosse um nativo da velha Gália.

Episódio ocorrido após a cerimônia de outorga a ele do título de cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra da França ilustra-o magnificamente. Investido da comenda, ao discurso de agradecimento do agraciado sucedeu a quebra de protocolo, pelo Embaixador da França no Brasil. Pedindo a palavra, o diplomata afirmou nunca ter ouvido um estrangeiro falar tão bem a língua de seu país.[12]

Reconhecia-se, ali, o que o novo comendador francês reivindicava para si: aquela era sua segunda língua. Diríamos, se o português lhe servia de língua-mãe, porque de fato o era, o francês cumpria as funções de língua-tia, ou língua-madrinha.

Há textos esparsos, publicados em outros veículos de comunicação. É o caso da Revista de Cultura do Pará, que traz interessante texto de Machado, traçando o perfil humano e literário de Manoel Lobato.[13]

Esse conviva diário do dono da casa nasceu em Humaitá, no Amazonas, e passou a maior parte de sua vida na capital paraense, onde se fez amigo do autor. A amizade, a admiração e a solidariedade de Machado produziram belíssimas páginas, sempre recheadas de importantes referências, como de costume nos seus textos.

Para ele, Manuel Lobato era um companheiro de viagem. Disse-o bem, pois viagens era o que experimentavam os seronistas nas conversas descontraídas e ricas da varanda. Além dos deslocamentos reais de Lobato, pelas diversas partes do mundo.

Em síntese, eis como o amigo e anfitrião do amazonense feito chefe de gabinete do governador do Pará e deputado estadual o via:

A literatura era seu fraco e era o seu forte. Anatoleamente, falava de si mesmo através dos livros, que foram sua paixão alucinada e alucinante.

Foi tamanha a inserção – digo-o melhor, assimilação – de Lobato ao clima intelectual e à vida do Pará, a ponto de Machado afirmar que, diferente de Heine, o desgraçado poeta alemão, (que) levou toda a amargura do mundo no esquife, no de Manuel Lobato foi muito do passado cultural de nossa terra.

A prosa solta, leve e precisa, marca nesse trabalho a erudição do autor e seu apurado senso de observação, seja do objeto de sua escrita, seja da produção literária que sustenta o texto. As referências, diretas ou apenas insinuadas ou incidentais, dizem da riqueza da linguagem e dos conhecimentos de que ela se nutre. Tudo, sem ostentação ou empáfia. Tudo muito natural, como se o papel, tornado livro ou não, fosse território em que o autor pisava seguro, confiante, sem temer escorregões. Estes, é certo, se não aconteceram, algumas vezes foram apontados. Apontados, era quase certo renderem excelente material para o desfrute e a ilustração dos leitores. E, também, saborosas disputas literárias.

Exemplo das discussões que Machado não evitava, antes parecia estimular e divertir-se com elas, foi a controvérsia mantida com José Ribamar Moura, a propósito da doença do outro Machado, o de Assis.

Epilético, o bruxo do Cosme Velho teve atribuídos ao mal alguns de seus pecados literários – chamemo-los assim. Isso bastou para Moura, com ironia, tecer comentários desairosos a trabalho de 1939 do outro, o Machado da Praça da República.[14]

Percorrendo críticos que se ocuparam do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, Coelho marca sua posição:

Machado de Assis na literatura brasileira ficará, pois,

exemplo único: todos o leem, poucos o entendem, nin-

guém o imita...

O remate é dado também com ironia, citando D. Francisco Manuel de Melo:

Da infelicidade da composição,

erros da escritura e outras

imperfeições da estampa, não